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CANIÇO
Quis
sentar-me aqui porque a minha vida era assim:
Sentada,
pensativa.
Voltado
para a montanha, sei que à beira do pinhal
o
pai crescia.
O
primo nem disse adeus quando a morte o levou nas
suas
rodas.
Então,
setembro
tornou-se uma dor na recordação das praias.
Demorados
frutos alastravam pelos meses.
As
espigas levantadas
davam
esta luz de ouro e depois eram espectros
dançando
na treva.
Em
cada campo vivia uma sobressaltada inocência que
acordava
cedo, destruindo os relógios.
Às
vezes,
eu
passava de lado e descia até o mar.
o
mar tinha a sua música de cordas húmidas, com
o
lodo à volta.
Eu
esquecia as cidades.
Dormia
As
canas explodiam para cima, unindo-se a Vénus na
Sua
doçura.
Quando
regresso as portas se fecham. Já não tenho as chaves
de
uma vida antiga. Olho à volta.
Passam,
no sol crescente, as caravanas do litoral,
jovens
amantes a caminho do norte.
As
suas grinaldas trazem fios de sangue.
Ah,
se ao menos o amor fosse uma canção de estrelas
puras,
uma
lâmpada intensa, ao fundo, atrás do mar,
iluminando
a casa!
Mas
a casa cede.
A
hera enreda-se a seu lado estão os figos e ao
longe
os sinos do mar.
O
pai vai esquecendo e é triste sem o vinho sobre
a
mesa.
Já
não queimam o alecrim ao entardecer das vilas.
Há
uma raiz que se alonga tremendamente e é como
Um
grito no monte das oliveiras.
E
as oliveiras são os meus filhos e as lágrimas dos
Meus
filhos, regressando aqui, à saudade do pai.
De Pé,
toco as margens do céu e no
céu as casa são
brancas, como os jardins atrás.
A ave, que passa escarnece
da minha contemplação.
Passa incessantemente,
Abrindo e fechando os círculos,
e há sempre um
Lamento,
Uma notícia sinistra quando
se afasta.
Eu não podia afastar-me.
Quis arrancar as âncoras,
uma corda, um prego de
Fogo cravado na carne
Mas a minha carne era uma
pedra de silêncio que só
O silêncio movia.
Não conheço outra arte.
Reuno os fragmentos de um
passado indecifrável.
As suas tábuas assinalam
quintais que não vi, uma
estrada íngreme,
vastas anoneiras, um
casebre, os melros na infância
do pai,
a morte sentada em duas
rodas e depois a mágoa.
Desastrosa vida.
Agora é fácil. É fácil
morrer.
José
Agostinho Baptista, Biografia
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