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  A AMASSADURA DA FESTA

 

    Na madrugada da véspera de Natal, ainda breu, a avó levantava-se, saía à rua, olhava para o relógio da torre da igreja para ver as horas e logo começava a  procurar no céu estrelado a lua, esta indicar-lhe-ia a hora ideal para fazer a amassadura da festa. Quando a lua começava a subir era chegada a hora de meter as mãos à massa, pois a maré estava a subir e o pão cresceria e arregoaria.

   Primeiro começava por acender o lume ao forno. Juntava uma mão-cheia de fagulha que tinha colhido na véspera no Pico dos Covões e ia acende-la à lareira. Soprava as brasas semi-apagadas que tinham ficado do jantar, até ficarem encandescentes. Acendida a fagulha colocava-a no forno e cobria-a com algumas pinhas que tinha colocado previamente na boca do forno. Quando as pinhas já estavam a arder cobria-as com alguns galhos finos de pinheiro, aumentando a grossura da lenha à medida que a labareda aumentava de tamanho e ia formando as primeiras brasas.

   Enquanto o forno aquecia a avó preparava-se para iniciar a amassadura. Atava uma toalha à cintura a fazer a vez de avental dirigia-se a um canto da cozinha, destapava o pequeno alguidar de barro, desembrulhava e verificava se o fermento que preparara na véspera tinha levedado e se estava em condições.

   Depois retirava o pano que cobria as batatas que tinham sido cozidas à hora do jantar e punha-as em cima do mesão. Dirigia-se para o alguidar da amassadura ( embutido na parede, ao lado do forno), e colocava água farinha, sal,  desfazendo o fermento. Misturava tudo e  por fim juntava as batatas. Os punhos calcavam violentamente a massa até que fizesse bexiga.

   Logo que a massa se encontrasse em condições a avó preparava o tendal que colocara num tabuleiro,  polvilhava-o com farinha e moldava as casas que acolheriam o pão.

   Com mãos firmes  retirava do alguidar uma porção de massa, formava uma bola que colocava em cima do mesão polvilhado com farinha.  Depois tendia, enrolava e dobrava, colocando-a nas casas que tinha moldado no tendal. Terminada esta tarefa, o tabuleiro era abafado e o pão descansava  até  levedar.

    Como era costume fazer-se pão por mais do que uma vez na quadra do natal e fim de ano, a avó retirava da amassadura o renovo do pão o qual era envolto em farinha,  embrulhado num pano e guardado num local fresco. 

    Para verificar se o pão estava levedo, a avó destapava uma ponta do tabuleiro e pressionava a massa com um dedo. Se, ao retirar o dedo, a massa voltasse a levantar era sinal de que o pão estaria pronto para ser colocado no forno.

    Quando a boca do forno fazia pestana, era  chegada a hora de preparar o forno para receber o pão.  As brasas e a cinza que tinham sido previamente espalhadas por todo o forno com o "esbraseador" tinham de ser retidas com a ajuda do "barredor" previamente borrifado com água para que não ardesse.

    Limpo o forno a avó iniciava o trabalho meticuloso de colocar o pão nos cantinhos certos do forno por forma a que coubesse todo o pão da amassadura. Para tal usava uma pá de madeira que manejava com arte e destreza. Os pequenos espaços que ficavam entre os pães eram usados para arrumar os brindeiros.

    Colocado o pão e antes de fechar a porta do forno a avó dizia a seguinte reza " Em nome do Pai e do Divino Espírito Santo, que Deus te cresça no forno como cresceu em toda a terra" e fazia o sinal da cruz a abençoar o pão. Fechava o forno e de seguida sacudia o tendal diante da porta do forno.

    Quando o pão já estava cozido,  ela munia-se de uma toalha e da pá que usara para colocar o pão. Retirava o pão um a um, sacudindo-os para lhes retirar a  cinza ou os restos de brasas que estivessem encrostadas na sola do pão. Colocava-os num tabuleiro, abafava-os com uma toalha  para que  amolecessem. Depois de arrefecido o pão era guardado num cesto forrado com uma toalha e dali ia saindo para regalo e delicia de toda a família. 

    Os brindeiros eram distribuídos pelos netinhos e outros eram colocados na escadinha  da lapinha  como singela oferenda ao menino Jesus, em sinal de agradecimento e de partilha do pão. 

 

GLOSSÁRIO

breu - escuridão.

"barredoiro" - Vassora feita com tiras de pano para limpar as brasas e a cinza do forno.

brindeiro - pão pequenino que se oferecia ( brindava )  às crianças e que se colocava na lapinha.

Casas - cavidades moldadas numa toalha ou pano aonde se coloca o pão amassado.

"esbraseador" - ferro ou pau que serve para espalhar as brasas pelo forno.

tendal - toalha de pano onde se colocam os pães depois de tendidos.

tender - acto de moldar o pão esticando a massa.

renovo - massa que era guardada para ser junta ao fermento na próxima amassadura.

fazer pestana - cor esbranquiçada visível à volta da porta do forno decorrente da elevada temperatura.

 

     Rui Gonçalves

 

  

 

 

 

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