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O entusiasmo vivido pelas minhas irmãs mais velhas era tanto que me deixou na memória as artimanhas que uma delas fazia para ganhar o jogo do "Balamento". Desde o esconder-se ao disfarçar-se de homem, valia tudo, de modo a que à hora marcada, somasse mais um "Balamento" para ser a primeira a atingir o número acordado. O "Balamento" consistia numa determinada quantidade de amêndoas, torrões de açúcar ou figos passados pagos pela pessoa que perdesse o jogo. No Domingo de Páscoa era o dia de «comer o "Balamento". Pessoas de diferentes sítios da freguesia do Caniço reuniam-se no Pico das Eiras e partilhavam o conteúdo das iguarias trazidas. Em Histórias do Bertoldinho de Lília Mata vem referida essa tradição com a denominação de «balamento», contrariando a do autor das Ilhas de Zargo - «Belamente». Eu defendo a primeira, porque, embora em certas zonas da Madeira, a vogal final da palavra seja pronunciada como no advérbio «belamente», noutras a realização fonética é igual à do substantivo «balamento». Por outro lado, nunca se ouve o som «é» da primeira sílaba de «Belamente», mas sim o «a» de Balamento. Ora «bala», no português do Brasil é, segundo Antenor Nascentes - pedacinho de açúcar em ponto vítreo, podendo levar suco de frutos, essências ou não - também conhecido por: «bola», «caramelo», «queimado» e «rebuçado». Por isso, a palavra «Balamento», embora não conste dos dicionários, significa o acto ou a acção de fazer «balas» e poderá ser tão antiga como a nossa época áurea da produção do açúcar, durante a qual, segundo o historiador, Alberto Vieira, houve madeirenses que foram para o Brasil e lá iniciaram aquela indústria com engenhos também construídos por madeirenses. Portanto, quem perdesse o jogo, teria de fabricar «balas». Por isso, o ganhador dizia alto: «Balamento!», normalmente, apontando com o dedo - sinal de obrigação.. Este ano já joguei ao «Balamento» na Internet, mas é curioso que os meus adversários não conheciam o jogo e preferiram que o prémio fosse um Ovo de Páscoa, em detrimento dos torrões ou das amêndoas. Concluindo, quem quiser manter a tradição e jogar ao "Balamento", na Net - através do IRC - ou fora dela, deve reunir-se depois, no Pico das Eiras ou em qualquer outro sítio, para partilhar e comer o seu «Balamento», contribuindo para que esta tradição continue na nossa terra. As regras deste jogo vêm descritas na página 50 de Histórias do Bertoldinho. Páscoas felizes e bom "Balamento"!
Conceição Gouveia e Freitas
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