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BONECOS DE MASSA

 

    Todos nós, ou pelo menos a maioria dos madeirenses, já comprámos uma boneca de massa, uns bonecos com cerca de um palmo de tamanho, enfeitados com papel de seda  vermelho e azul, que encontramos nos arraiais.

     A tradição é antiga, mas actualmente apenas uma pessoa sabe como a fazer. A "Salomé das bonecas" contou a sua história.



    É fácil chegar à casa de Maria Salomé Teixeira. Basta levar o carro até à capela da Mãe de Deus no Caniço. Depois, a qualquer um que passe, pode perguntar e todos lhe darão as mesmas indicações: «Deixe o carro aqui. Depois vá sempre por este caminho até encontrar um tanque. Vire à direita e siga por esse caminho. É a casa que tem a "guaveira". Não há que enganar». 

    E realmente não há muito que enganar, apesar de a primeira vez ser sempre um pouco mais complicada por nem todos saberem distinguir uma goiabeira de uma outra árvore qualquer. Porém, lá chegámos. A casa é pequena mas aconchegante. Batemos com a mão levemente na porta vermelha e, sem grandes demoras, a senhora Salomé abre a porta fazendo-nos entrar naquela divisória que é o seu quarto de dormir, a sua salinha e o seu local de trabalho. Recebe-nos com um sorriso e sem medo nem vergonha. Parece que nos conhece há longa data e faz-nos logo sentir como se estivéssemos na nossa própria casa. 

    Em cima da mesa esperam a farinha, o corante, a água e alguns rolinhos de papel de seda vermelho e azul, tudo o que é preciso para fazer as bonecas de massa, tudo, para além da mestria única de quem sabe e de quem gosta daquilo que é a sua própria arte. 

    Mas, para além de já fazer estas bonecas desde a mais tenra idade, a verdade é que não sabe como é que começou esta tradição. A memória parece falhar-lhe por algumas vezes quando se tratam de pequenos pormenores da história, mas a verdade é que, quando perguntamos algo acerca da sua própria história, da sua vida, os seus olhos brilham e Salomé começa logo a contar, enquanto arruma os ingredientes na mesa e ajeita o lenço da cabeça, para os cabelos não a incomodarem.

 Como  tudo  começou...


«Este é um trabalho que já vem das avós e bisavós e outras mais antigas», começa por explicar à REVISTA. Não sabe ao certo quem teve a ideia de primeiro fazer uma boneca com massa, uma boneca que serve também para comer, depois de cozida, de preferência, apesar de haver quem goste de massa crua. Mas a verdade é que a arte já vem de há longa data, tão longa que é difícil encontrar quem saiba contar a sua história de cor e salteado.


    Salomé Teixeira sabe apenas o que a sua mãe contava, enquanto ia amassando e dando forma às bonecas, quando ainda era bem pequena. Mas não sabe contar nada para além disso. Prevalecem na sua memória as palavras da mãe e as imagens que guarda da sua infância, do mesmo local onde hoje vive após quase 80 anos. «Esta é uma tradição muito antiga e não sei como começou. Minha mãe contava a mim e à minha irmã como é que tudo começou, mas já não me lembro em que tempo é que era». 

    Enquanto deita um pouco de farinha numa taça, juntando uns grãozinhos de sal grosso e um pouco de água, para começar a amassar, Salomé vai contando a sua história e a da sua família, que acaba por se enredar naquela que é a história da tradição das bonecas de massa.


    Segundo conta, «no antigamente», existiam duas famílias que detinham o "segredo" da elaboração da massa que serviria depois para moldar nas formas que hoje reconhecemos em qualquer festa ou arraial, ou outras mais. Uma família "do Correia" e outra que eram os Teixeiras «da beira- mar» ou do Caniço de Baixo. Mas ambas as famílias acabaram por se reunir numa única com o casamento dos pais de Salomé. Unidas as famílias, unidas as artes. 

    Ainda havia um tio e uma tia que ensinaram às suas filhas a arte da família, mas, depois da morte dos pais e da filha, que também ia vender as suas bonecas para as festas, as outras primas de Salomé deixaram de moldar aquela massa amarela e, sem esperar, viu-se como a última pessoa a cumprir esta tradição na Madeira. 

    Agora que a farinha está bem misturada com a água e que a massa está bem ligada, já sem se pegar às paredes da tigela onde está a ser amassada, junta-se um pacotinho de corante, já desfeito num pouco de água. Um pó cor de tijolo, feito à base de ovo, comprado na farmácia da zona e que, quando se junta à massa, a faz ganhar uma cor amarela.

     Com as famílias reunidas, era inevitável que a arte das bonecas de massa passasse de pais para filhos. A mãe ensinou-lhe, «desde que comecei a me compreender» e a partir de então nunca mais parou.

    Inicialmente, a mãe trabalhava com as suas duas filhas, Salomé e a primogénita, oito anos mais velha, que ainda hoje é viva e mora na Rua Bela de São Tiago, em pleno Funchal. Logo que começou a chegar à altura da mesa de trabalho, a mãe ensinou a fazer os «bichinhos» que enfeitam as bonecas. «Foi o primeiro trabalho que a minha mãe me deu para fazer». Depois vieram as bonecas e as rodas com os passarinhos que também fazem parte da tradição. 

    E a massa que faz, «tudo a olho», agora já com a sua cor amarela, passa da tigela para a mesa, onde as mãos pequenas e esguias de Salomé amassam ainda mais um pouco, fazendo da massa um rolo para depois cortar em pedaços mais pequenos que mais tarde serão moldados em «rapazes com calças e raparigas com saias e em galinhos». 

 

    Quando era pequena, também o pai ajudava "à festa", fazendo cestinhos de verga onde eram colocados «bisalhinhos e galinhas» e tudo «para a minha mãe levar para vender nos arraiais».


    Salomé ainda se lembra de ficar sozinha com a irmã em dias de arraial. A mãe «caminhava» e as duas meninas ficavam em casa e, como Salomé sempre teve «jeito e pachorra» para fazer bichinhos e bonecas, a irmã pedia para que ela fizesse enfeites para que as suas bonecas de brincar ficassem mais bonitas. «Ainda me lembro, como se fosse hoje, de ela me dizer para eu me aviar com o trabalho para ela poder brincar». 

    Mas, segundo afirma, enquanto amassa cada bocadinho de massa já cortada, não alterou nada às "receitas" da mãe, fazendo tudo igual. Até a mesa onde a mãe trabalhava é a mesma onde hoje Salomé começa a dar cortes no pequeno pedaço de massa, cortes que depois se tornarão em braços e em pernas. E mesmo que a mesa já esteja velhinha e até já lhe falte um pedaço, Salomé sorri enquanto afirma a pés juntos «não conheço outra mesa para fazer trabalho».


O  futuro  da  arte

«Faço bonecas de massa desde que compreendi o trabalho e continuo até hoje, graças a Deus.» Salomé Teixeira não deixa ficar margem para dúvidas: gosta mesmo de fazer bonecas de massa. E é esse gosto por esta arte antiga, por esta arte de família, que a faz ter forças para continuar. 

    Mas mesmo com este gosto que não nega, mesmo apesar de todas as dificuldades, Salomé não deixa de afirmar que, para fazer bonecas de massa, é necessário uma grande dose de «pachorra». «Quem não tem pachorra não faz», diz e ri-se, quando começa a contar uma história que já lhe contava a mãe. Contava que, «quando ela era nova, havia um "criaturo" que queria seguir neste trabalho, mas não dava com o ponto certo. Então acabou nas tababeiras a jogar a massa toda fora. Ele nunca mais tentou fazer bonecas de massa, mas também foi um pecado o que ele fez com a massa.»

     A verdade é que Salomé nunca parou mesmo de fazer bonecas de massa. Ensinou a arte ao filho e ao casal de netos, que vivem hoje em Jersey, no Reino Unido, mas nenhum deles se interessou o bastante em manter a tradição, apesar de, quando eram ainda pequeninos, quando chegavam a casa depois da escola, gostarem de ajudar a avó a fazer os bichinhos e até a colocar o papel que dá mais cor e vida aos bonecos. Depois, quando cresceram, o interesse pelas bonecas acabou rapidamente. «Lembro-me de a minha neta dizer: avó, eu já não tenho pachorra». 

    Agora que os netos estão em Jersey, quando vêm à terra natal ainda gostam de levar algumas bonecas para lá, para recordação, para se lembrarem da avó e da família que deixaram para trás. Agora que as bonecas começam a ganhar forma nas suas mãos, Salomé Teixeira coloca os olhinhos, feitos com sementes de uma "corriola" que existe lá perto da sua casa. Os bichinhos que as enfeitam são moldados com um pouco de massa, ganham olhos com sementes de cebola, arranjadas há muito por um cunhado já falecido, e "coladas" nas bonecas com um pouco de água. Agora só faltam os "chapéus" e os enfeites dos fatos feitos com papel de seda e os "cordões" de massa que as embelezam.

     E se as bonecas da Salomé já chegaram ao Reino Unido, devido aos seus netos, todos as conhecem devido a um quadro existente no aeroporto. «As minhas bonecas estão lá retratadas», conta, com orgulho. «Foi um rapaz aqui do Funchal. Ele levou algumas bonecas e depois fez o trabalho dele em pedra. Dizem que está muito bonito, mas eu ainda não fui lá ver, porque quando o aeroporto foi inaugurado eu não pude ir porque estava com uma gripe. O rapaz veio cá buscar-me e tudo, porque até vinha o presidente de Lisboa, mas eu não pude ir. Tive muita pena», mas promete que, quando tiver oportunidade, vai lá ver, com os seus próprios olhos, como é que está retratada a sua arte.

     Depois de colocadas as finas tiras de papel de seda com a precisão de quem sabe e com a ajuda de uma pequena tesourinha que já era do tempo da sua mãe, depois de colocados os "cordões" que enfeitam os fatos do rapaz e da rapariga feitos em massa, é tempo de cozedura. 

    Até há bem pouco tempo era no forno a lenha, existente na cozinha que já era dos seus pais, onde Salomé Teixeira cozia as suas bonecas. No tempo dos arraiais, quando Salomé faz 30 a 40 bonecas por dia, «para dar vencimento às encomendas», o forno a lenha era uma verdadeira dor de cabeça. Para além da dificuldade existente em encontrar lenha, as forças começam a escassear e o trabalho é redobrado quando é preciso aquecer, varrer e colocar os tabuleiros atempadamente.

    Há cerca de um mês, e por intermédio do Instituto do Bordado, Tapeçarias e Artesanato da Madeira (IBTAM), a FN-Hotelaria, uma empresa ligada à comercialização de equipamento de cozinha e lavandarias industriais, realizou o maior desejo de Salomé, oferecendo-lhe um forno eléctrico, um sonho antigo que já tinha sido expresso várias vezes a diversas entidades. 

    Enquanto espera que a empresa Electricidade da Madeira aumente a potência da "luz" da sua casa, para que o forno possa ser ligado, Salomé já colocou o seu novo forno ao lado do antigo forno a lenha, esperando que chegue rapidamente a hora para começar a cozer as suas bonecas. Agora o desejo já é outro: «O que eu queria agora era arranjar uns tabuleiros de alumínio
novos para o forno que me ofereceram. Mas ainda não os posso comprar. Por enquanto vou-me remediar com os meus velhinhos e depois, quem sabe?...».



Mas é a arte de saber moldar, de saber fazer como os antigos as bonecas de massa que Salomé Teixeira gostava de transmitir aos outros, para que a tradição possa continuar a existir. À possibilidade de o IBTAM a convidar para dar umas aulas, Salomé afirma que gostava de ensinar para continuar a tradição. «É bom é gente nova para que tome o gosto às bonecas. Agora pessoas que tenham já os seus bons empregos não vão deixá-los, porque as pessoas ganham muito pouco fazendo bonecas e ainda por cima isto dá um trabalhão e é preciso muita pachorra». E, a menos de duas semanas do dia de Santo Amaro, o dia em que se limpam os armários, e quando Salomé celebrará a bela idade de oitenta anos, ela diz-nos convicta «eu cá nunca deixei de fazer este trabalho e vou continuar sempre até quando Deus me der forças e saúde. E agora com um forno novo ainda mais força vou ter». Tenho a certeza que todos rezaremos por uma vida ainda mais longa da Salomé das bonecas e tudo para que a tradição não morra antes do tempo...

Texto gentilmente cedido ao site Caniço Online pela jornalista:

 Ana Correia Martins

acorreia@dnoticias.pt

Fotografias do Webmaster -  Rui  Gonçalves

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