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Homenagem à artesã Salomé Teixeira Em Maio de 2004, esteve na Madeira, de férias, uma senhora da Benedita, vila do distrito de Leiria, que viu as Bonecas de Massa de Pão, e quis adquiri-las para oferecer a pessoas da sua amizade, na sua região. Fui com essa Senhora à casa da Sr.ª Salomé Teixeira, perto da Capela da Mãe de Deus. Aí, fomos recebidas com um sorriso e à-vontade, aliados à simplicidade que a caracterizava aquela senhora. A nossa conterrânea estava a manufacturar os bonecos de massa; tinha a massa já preparada num alguidar e uma dose para cinco bonecos sobre a tábua. Aproveitei para fazer umas fotos da manufactura daquela pequena série. Comprámos algumas unidades das que a Sr.ª Salomé tinha para vender na Festa de Santa Rita. Ao despedir-me prometi à Sr.ª Salomé que lhe arranjaria fotocópias de um pequeno texto sobre a simbologia dos bonecos, da massa de pão e das cores utilizadas nos bonecos, a fim de ela poder dar às pessoas que, como sempre lhe perguntavam o significado daquelas miniaturas artesanais. No dia seguinte, entreguei as referidas fotocópias, para que a nossa artesã já as utilizasse na Festa da Cebola. Na tarde do primeiro dia dessa festa, dirigi-me ao Largo em frente à Igreja do Caniço, onde agora se realiza a citada efeméride. Comprei lá algumas figuras à Sr.ª Salomé e uns estrangeiros que lá estava vieram observar os que estavam no cesto. Vi a Sr.ª Salomé dar o pequeno texto, mas, quando os turistas viram que era em português, voltaram a entregá-lo. Essa atitude fez-me pensar como poderia ajudar a Sr.ª Salomé a divulgar a simbologia das suas peças de massa de pão, junto dos estrangeiros. Comecei a formular objectivos para convidar a nossa canicense à Escola Secundária Jaime Moniz (Liceu). Conversei com a Dr.ª Elisabete Cró, que como eu é coordenadora das Actividades de Complemento Curricular e demos a saber a nossa intenção, que foi logo aprovada. Entretanto, pedimos a colaboração das professoras de Técnicas de Tradução, através da Coordenadora do Departamento de Línguas. Percebemos que todos estavam prontos a colaborar e, com a participação da nossa Escola, pudemos oferecer uns exemplares da simbologia dos Bonecos de Massa à Sr.ª Salomé, em português, inglês, francês e alemão, no dia 9 de Junho de 2004. Na mesma data, oferecemos um exemplar ao Senhor Secretário do Turismo, que também esteve presente e apreciou a demonstração que a nossa artesã fez, para os alunos e professores presentes, no Auditório. Aí foram ouvidas palavras muito calorosas do Senhor Secretário à arte popular da Sr.ª Salomé. Mal sabíamos nós que um mês depois, a Sr.ª Salomé nos deixaria para sempre. Como é sabido, a Sr.ª Salomé criava figuras de três tamanhos: pequenas, médias e grandes. Encomendei-lhe dois jogos de figuras grandes - um para oferecer à nossa equipa da Direcção e outro para o Senhor Secretário do Turismo, nesse dia 9 de Junho. Também na mesma ocasião, fiz saber da vontade de o meu filho, oferecer uma tiragem de 2.000 panfletos da simbologia atrás mencionada. No dia 13 do mesmo mês, havia a tradicional Ceia dos Santos Populares no Liceu. Aproveitando uma boa ocasião para a Sr.ª Salomé poder vender mais um cesto de Bonecos de Massa, fui à sua casa, no dia 11, apresentar-lhe a ideia e oferecer-me para levá-la nesse dia ao Liceu. A Sr.ª Salomé reagiu desta maneira: «Meu Deus! Eu acabei de rezar a pedir a Nossa Senhora que me deparasse um “trabalhinho” de bonecos, porque eu não queria ir buscar um bordado… E a Senhora Professora a chegar aqui, agora, com essa encomenda!... Louvado seja Deus!». É claro que tive de fazer um esforço para reter as lágrimas que me afloraram aos olhos, ao ver a alegria de uma pessoa de 81 anos que ainda se entusiasmava tanto com o seu trabalho. À hora marcada do dia 13, estava a Sr.ª Salomé, como havíamos combinado, perto da Capela da Mãe de Deus, com o seu cesto de Bonecos de Massa, forrado por uma toalha bordada, para ir comigo ao Liceu vendê-los. É escusado dizer que não tive dificuldades para fazer com que, no espaço de uma hora, a Sr.ª Salomé visse o seu cesto ficar vazio e alguns trocos no bolso. Apesar da sua idade, aquela senhora parecia uma criança, cheia de satisfação e alegria. Estava muito longe do nosso pensamento que a Sr.ª Salomé já nem tinha um mês de vida. Quando a 9 de Julho quis encomendar-lhe mais dois jogos de bonecos grandes, recebi a triste notícia que a Sr.ª Salomé estava morta. O que me restava era ir ao seu funeral e pedir ao Sr. Padre Rogério que dirigisse algumas palavras de reconhecimento de uma pessoa excepcional. Também achei que devia fazer uma das leituras na sua missa de Corpo Presente. E, por incrível que pareça, a leitura vinha tão a propósito, tive de treinar a leitura e minha preparação para não deixar soltar as lágrimas em frente à assembleia cristã. Espero que ela esteja feliz. Conceição Gouveia e Freitas
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