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O
jogo da "Condensinha" |
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O jogo da "condensinha" era um dos meus preferidos.
Foi-me ensinado pela minha mãe, que se lembrava de o ter jogado nas eiras,
durante a debulha da palha, aos domingos, nos cabeços ou nos terreiros, e no
recreio, quando andava na escola.
Não o joguei na escola nem nas eiras – não cheguei a
assistir às debulhas – mas lembro-me de ter " brincado" à "condensinha" vezes sem conta com as minhas irmãs, no nosso terreiro, no terreiro
da minha avó e no da minha tia.
Uma fazia o papel de
condessa, outra de cavaleiro. As outras
crianças eram as filhas da condessa. Estas davam as mãos umas às outras e
depois à condessa, que permanecia no meio da fila assim formada.
O cavaleiro ficava em frente da
condessa, avançando uns
passos quando cantava e recuando depois, quando estava na vez de a condessa
responder. A canção repetia-se do início ao fim para cada uma das filhas da
condessa. O jogo acabava quando esta já não tinha nenhuma filha. Eis a
canção:
Cavaleiro:
-
À "Condensa",
"Condensinha"
À mulher do Aragão
Venho lhe pedir uma filha
Destas todas que aqui estão
Condessa:
-
Eu não dou as
minhas filhas
Nem por ouro nem por prata
Nem por sangue de aragata
Que me custou a criar
Cavaleiro:
-
Tão alegre qu’aqui
vinha
Tão triste me vim achar
Pedir a filha à "Condensa"
"Condensa" não me quis dar
Condessa:
-
Volta atrás, ó
cavaleiro
Se fores homem de bem
Escolhe uma das minhas filhas
Se a estimares bem
Cavaleiro:
-
Eu estimo,
estimarei
Sentada numa almofada
Enfiando continhas de ouro
Vem-te cá, minha esposada
Era assim que eu cantava o Jogo da
"Condensinha" e foi assim
que a minha mãe, as minhas tias e as amigas, o cantaram no seu tempo de
juventude. Mas a minha avó, quando nos ouvia, lembrava-se sempre de o ter
cantado de uma outra forma quando era criança.
Punha-se a dizer uns versos mas na pressa de brincar nunca os
aprendi de cor, nem me passou pela cabeça anotá-los. Muito mais tarde, quando
me interessei por todas estas memórias da nossa literatura oral, ela já não
conseguia lembrar-se como deve ser. Apenas retalhos aqui e além, eram
demasiadas coisas para uma pessoa poder lembrar-se, memórias acumuladas ao
longo de noventa e seis anos de vida.
Fiquei contente quando, em 1986, reconheci a versão do Jogo
da "Condensinha" que a minha avó sabia num artigo publicado um ano antes na
Revista "Das Artes e da História da Madeira". Trata-se de um artigo
da autoria de Álvaro Manso de Sousa, com o título "Frivolidades
históricas da Madeira. O Jogo da Condessa"
Afirma o autor: "A gente nova desta luminosa ilha –
aquela de quem se diz: deixá-los que são rapazes! – sempre teve como lícito
recreio, como folguedo próprio de uma saudável adolescência, o costume de
reunir-se, em escolhidas épocas festivas, nas eiras e terreiros e, ali, sob o
complacente olhar familiar, exibir jogos, ferras, danças e outras alegres cenas
e colorida movimentação. Entre tais divertidos passatempos pratica-se, ainda
hoje, o conhecido "Jogo da Condensa" de velha tessitura,
entretenimento que o dr. Álvaro Rodrigues de Azevedo descreve no seu
"Romanceiro da Madeira", valiosa colectânea de histórias, xácaras,
casos, contos, lengalengas, perlengas e jogos.
Vejamos o "jogo da condensa" que, ali, é assim
observado: - sete raparigas de mãos dadas são filhas da condessa, já entradas
no mosteiro para professar. Junto delas está uma rapariga a quem por sorte
coube ser a condessa. Sete rapazes, também de mãos dadas, se dirigem para a
condessa; são cavaleiros que lhe vêm pedir as filhas em casamento. Dizem eles:
-
"Aqui las
vamos pedir
Pera com elas casar"
Responde
ela:
-
"Nem por
ouro, nem por prata
Nem por sangue de dragão
Eu não dou las minhas filhas
Do mosteiro onde elas estão."
Despedem-se
eles:
-
" Tão
alegres que vinhemos
Tão tristes que voltaremos
Que las filhas da Condensa
Para mulheres não levaremos.
Pois sabei que todos temos
Senhorio sem igual,
Que todos semos fidalgos
Que nem de sangue real."
E vão se retirando, mas a
condessa os retém.
-
" Voltei a
mim cavaleiros
Por serdes homens de paz,
Ide cada um à grade
Escolhei la que vos praz."
Eles voltam, aceitam e cada qual, por sua ordem, observando
cada uma das filhas da Condessa de per si, vai tomando para noiva a que lhe
agrada. Diz o primeiro cavaleiro:
-
" Esta
não, nem esta quero
Esta coma pão de cento;
Esta vinho da cabaça;
Esta carne do assento;
Esta carne do assem;
Esta é do meu contento;
Andai comigo, meu bem."
Todos os cavaleiros escolhem, com a mesma cerimónia, a sua
noiva, até final, dançam, cantam e concluem, fazendo roda à condessa.
A "Revista do Arquivo Municipal", do Estado de
São Paulo, no Brasil, no seu CXXL aponta como brinquedo corrente, em São
Luís de Paraitinga, uma variante daquele jogo da condessa, assim praticado:
Em grandes rodas, de mãos dadas, as meninas cantam em
coro, dando passos cadenciados para a direita e esquerda.
-
"senhora
dona Condensa
filha de França, onde nasceste!
Sinhô rei mandou lhe dizer
quantas filhas você tem.
se quer lhe emprestar uma
pelo sangue de Aragão."
As outras
respondem:
- "Volta, volta
cavaleiro
Volta, volta mensageiro
Vai dizer ao teu rei
Que não dou nenhuma delas
Nem por ouro nem por prata
Nem por sangue de Aragão."
É para admirar que tendo atravessado o largo oceano (...)
subsista ainda vivo, embora estropiado do caminho, o velho jogo da condensa.
A distância modificou a letra e a intenção cínica:
sangue de dragão e sangue de Aragão (...)
Se o sangue de dragão, antiga droga medicinal, resina
vermelha empregada na tinturaria e na terapêutica arcaica, tinha um
inestimável valor pela sua variedade e segredo de origem a ponto de confinar
com o ouro e a prata, o sangue de Aragão seria, numa aliança matrimonial,
uma honrosa e revigorante linfa para pomposas genealogias, um garfo de boa
cepa para as classes privilegiadas. (...)
Mutilação grave no "jogo da
condensa" é,
contudo, a letra usada pelas garotas da minha rua, nestas estiradas tardes
dominicais. (......) (1)
Pobre "jogo da condensa" em tão esfrangalhado
texto. Desvirtuado, perdido o rigor da tradição, tornou-se um estranho bicho
em cujas veias corre um aquoso, anímico e dessorado sangue: Neste caso...o
esquisito sangue de aragata."
(1) Aqui o autor transcreve o versão do "jogo da
condensa" a que me refiro no início deste texto, a versão que
aprendi quando criança e tantas vezes cantei ao longo da minha infância.
Lília Mata
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