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E se fosse tudo mentira? Estaria senil, como dizem que ficam os velhos, e ter-lhe-ia dado para aquilo? Ter saudades do que nunca aconteceu, memórias de gente que nunca viu, esperanças ridículas e sonhos ainda mais incríveis? Que pensariam os outros quando olhavam para ele com um sorriso condescendente e lhe diziam palavras de conforto? Talvez apenas o tratassem assim por ser a maneira mais simples, como se faz a uma criança que não sabe nada do mundo, diz-se-lhe que tem razão porque é mais complicado e dá muito trabalho contar-lhe a verdade. E no entanto as memórias estavam ali, fervilhando na sua cabeça. Tomavam conta dele e deixavam-no num estado de agitação que ora parecia alegria ora tinha mais ar de ser angústia. Às vezes davam com ele a falar sozinho, como se falasse com alguém. Ninguém parava para escutar esse murmurar de velho mas se o fizessem talvez o ouvissem dizer: "Maria, queres que te traga um pinheirinho para a lapinha?" Ou então: "Está quase na festa, vai-se falar ao compadre para matar o porco." Algumas vezes ria-se de si próprio e dizia às empregadas do lar que não estava tonto, ainda não, estivessem descansadas. Sabia muito bem que estava a falar sozinho mas era essa a sua forma de lembrar-se. Elas, atarefadas com os preparativos do Natal, abanavam a cabeça e sorriam. Nesses momentos ninguém tinha dúvidas da sua lucidez. Daí a um bocado, porém, era capaz de alguém fazer-lhe uma conversa qualquer e ele apenas dar aos ombros e continuar a olhar para onde estava a olhar. Parecia ausente e respondia coisas que não faziam sentido. Já tinha passado um ano, parecia mentira. Ficou com os olhos rasos de lágrimas. Tinha-se aprontado com as suas melhores roupas e ficou à espera na sala de convívio pela habitual visita da família. Parecia que nunca mais chegava a hora e as saudades eram demasiado grandes para ele as conseguir segurar sozinho. O almoço foi carne-de-vinho-e-alhos mas era muito diferente da que Maria costumava fazer. Fizeram um presépio na sala grande mas faltava-lhe o musgo que os pequenos iam procurar aos pinheiros e também as cabrinhas. O triguinho tinha sido deitado em cântaros de barro e não em latas de sardinha forradas com papel de joeira. Entraram e saíram visitas o dia todo, desembrulharam-se à sua frente presentes sem conta. Havia música de Natal pelos corredores, que se misturava com o burburinho de muitas conversas simultâneas e em tom baixo. O dia tinha acabado e não chegou ninguém para ele. Lembrar-se custava-lhe tanto ou mais do que lhe custara nesse dia. Uma pessoa cuida dos filhos, faz sacrifícios mas também tem alegrias, e pensa que fez o melhor que Deus lhe permitiu. Depois chega a velho e acontece-lhe uma coisa destas. Sempre acreditou em Deus, sempre foi à missa, baptizou os filhos e mandou-os à catequese. Pensava que merecia um pouco de justiça. Mas o que é isso, a justiça? As visitas começaram por ser todos os domingos mas foram diminuindo com o passar do tempo até se resumirem aos anos e ao Natal. Depois...sente um nó na garganta e um aperto no peito. Por um lado até foi bom Maria ter ido primeiro, ao menos não passa por um desgosto destes. E se fosse tudo mentira? Estaria senil, como dizem que ficam os velhos, e ter-lhe-ia dado para aquilo? Imaginar uma família que não tem? Imaginar tudo até ao mais ínfimo pormenor, até os nomes dos filhos e dos netos, até os olhares e os gestos e as vozes e os brinquedos que lhes deu quando eles eram pequenos e as histórias que lhes contava e uma camisola encarnada que teve a Isabel e um casaco castanho que era do Alberto? Se pudesse escolher passaria o Natal com a sua Maria. Mas quem é que pode escolher? E como deixar de ter esperança? Como fazer de conta que não é quase dia de Natal outra vez? Como habituar-se a não ter filhos depois de os ter tido uma vida inteira? O desgosto que apanhou quando o Alberto teve uma pneumonia, nesse tempo não havia os médicos e os conhecimentos que há agora. E a alegria quando a Isabel passou o exame da quarta classe com a melhor nota da turma! Quis dar-lhes o que não teve e dizia a toda a gente: "O melhor que se pode dar a um filho é o saber." Saber para quê? Estava num destes momentos de profunda tristeza, quieto mas com as emoções todas em reviravolta, quando lhe falaram do auto de Natal. Pela primeira vez iriam fazer um auto de Natal no lar e ele foi escolhido para fazer de São José. Sorriu quando olhou para o boneco que iria para as palhinhas, para o lugar do menino Jesus. Piscou o olho à empregada: "Não me posso queixar, com a minha idade..." E deu uma gargalhada. Fizeram-se vários ensaios, afinal eram tantos os pormenores e tinha de sair tudo bem. Distraiu-se com aquilo. Estava tão contente com o seu menino. Afinal, sempre era pai. Talvez não estivesse senil, como dizem que ficam os velhos, porque aquilo que sentia já tinha sentido de outras vezes e era algo tão bom que ninguém saberia inventar se não o tivesse vivido realmente. Correu bem o auto de Natal, apesar de os pastores se terem enganado no caminho e da Nossa Senhora ter puxado demasiado o manto para debaixo do braço e se ter esquecido de uma deixa. Já estava tudo acabado mas ele foi-se deixando ficar, enquanto uns despiam as suas roupagens de reis e pastores e outros arrumavam as coisas nos seus lugares. Punha-se a olhar para toda a gente como uma criança à espera da melhor oportunidade para uma traquinice e logo depois fingia estar distraído a olhar para o presépio. Conseguiu. Quando ninguém estava a ver escapuliu-se para o quarto com o seu "menino". Na manhã seguinte encontraram-no com o menino nos braços. Estava frio e não se mexia. Mas tinha nos lábios um sorriso tranquilo.
Lília Mata 17/11/2001
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