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Era uma vez, no Caniço...

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    Quando não existiam prédios de apartamentos e as casas eram poucas, havia uma menina no Caniço, chamada Mariazinha, que nunca tivera uma boneca.

    Era filha de uma família que se dedicava somente à agricultura e, como em muitas outros lares de lavradores, não havia bonecas para as meninas nem carrinhos para os meninos. Subsídio, era um vocábulo desconhecido pelos lavradores e, quando não havia «embarque» para a exportação das cebolas, estas estragavam-se e só eram ulilizadas como adubo. Para suprir a falta do brinquedo dos seus sonhos, a Mariazinha embrulhava uns trapos, fingindo uma cabeça. Depois colocava-a dentro de uma canastra - cesto de cana - , sobre uns panos dobradinhos a fazer de colchão e, por fim, abafava-a com um outro liso que servia de lençol. Assim, a canastra era o berço e aquele embrulhinho de panos simulava um bebé que, na ausência de bonecas, fazia a sua vez.

    A menina vivia momentos felizes, imaginando-se a «mamã» daquela fingida boneca.

    Quando ia à casa das vizinhas - meninas da sua idade - ficava alegre, porque tinha oportunidade de brincar com as lindíssimas bonecas da Rosa e da Fernanda; triste por não possuir uma boneca. Os pais daquelas amiguinhas tinham ido para a Venezuela; elas tinham cobiçadas bonecas mas não tinham a companhia do pai, nem a sua ajuda nos deveres escolares. Porém a Mariazinha não tinha consciência dessa diferença e, muitas vezes a tristeza e até uma pontinha de inveja pairava nos seus pensamentos. Desejava uma daquelas bonecas. Algumas noites sonhava que já tinha uma mas, quando acordava, via que tudo era um sonho.

    Uma vez contou o seu sonho à mãe. Esta ficara muito triste por não poder satisfazer aquele desejo. E, logo que teve oportunidade, arranjou-lhe uma cabeça de pano, mas com cabelos de lã de ovelha castanha, olhos, pestanas e sobrancelhas bordados a linha preta e uma boca formada com linha vermelha.

    A mãe tivera a ideia de bordar dois dentinhos brancos sobre os lábios vermelhos. Aquela característica, própria dos bebés de seis meses, encantou a Mariazinha e, por algum tempo, evitou que a pequerrucha fugisse de casa para brincar com as bonecas das vizinhas.

    Mas, além de confeccionar a tal boneca de pano, muito engraçada, a mãe da Mariazinha sabia contar histórias. Nos dias de Inverno ou nas épocas de menos trabalho na lavoura, aquela senhora aproveitava para bordar um pouco, a fim de ganhar algum dinheiro para as suas despesas com a casa, pois o marido só se preocupava com o sustento da família. Então, enquanto bordava, a mãe da Mariazinha contava-lhe histórias. Uma delas, a Mariazinha nunca esqueceu - "A Vaquinha da Varinha de Condão" - e começava assim:

 

    Era uma vez uma viúva e um viúvo: a viúva tinha uma filha e o viúvo também tinha uma. Ambas se chamavam «Maria». A filha do viúvo ia à casa da viúva e brincava com a Maria da viúva. E a viúva dava muito pão e mel à Maria do viúvo. E depois dizia: - «Maria tu hás-de dizer ao teu pai que case comigo, que eu sou muito tua amiga, vou-te dar sempre pão e mel» Depois a filha perguntou ao pai: - «Pai, o pai porque não casa com a viúva? Ela é muito minha amiga; dá-me sempre pão e mel.» Dizia o pai: - «Ó minha filha, ela agora dá-te pão e mel, mas depois vai te dar pão e fel.» A Maria do viúvo ia sempre a casa da viúva. Esta perguntou-lhe: - «Então, tu disseste ao teu pai para casar comigo?» «Eu disse, mas o pai disse que não; que a senhora agora era muito minha amiga, mas depois ia ser minha inimiga - dava-me pão e mel agora, mas depois ia me dar pão e fel.» A Maria do viúvo continuava a ir à casa da viúva brincar com a filha da viúva. E tanto a viúva foi dizendo que queria casar com o viúvo e a filha foi pedindo ao pai até que ele sempre casou.

    A viúva mandava a Maria do viúvo - a enteada - para a cozinha e a filha dela era mais estimada. Depois ainda lhe dava muito trabalho: dava-lhe um par de meias para ela fiar num dia. Se ela não fizesse aquele trabalho dava-lhe uma sova - uma malha. Mas a Maria fez o par de meias por dia. Depois no outro dia, a madrasta deu-lhe par e meio de meias para ela fazer e se não conseguisse, levava uma malha. A Maria tinha uma vaquinha que a mãe lhe tinha deixado e então ia para o pé da vaquinha chorar, quando a madrasta lhe destinava muito trabalho. E a vaquinha perguntava: « - Maria, tu o que tens?» a Maria respondia: « - A minha madrasta dá-me muito trabalho e se eu não o fizer, ela dá-me uma malha, à noite.» A vaquinha respondeu: « - Põe aqui essa lã nos meus corninhos, que eu vou te ajudar.» E ela assim fez: Pôs a lã nos corninhos da vaquinha e chegou-se à noite estavam as meias prontas.

    À noite, foi apresentar à madrasta o trabalho. A madrasta ficou invejosa e pensou que alguém a tinha ajudado, porque era impossível fazer aquele trabalho num dia sozinha. Mas no outro dia ainda lhe deu mais trabalho e a Maria voltou a ir para o pé da sua vaquinha chorar. A vaquinha dizia sempre para ela não se afligir e colocar a lã nos seus corninhos que o trabalho ficaria feito.

    Cada vez a madrasta ficava mais desconfiada com o trabalho apresentado pela Maria do viúvo. Mas a vaquinha tinha nascido na noite de Natal e por isso tinha uma varinha de condão.

    A madrasta começou a fazer planos para descobrir quem ajudava a Maria do viúvo. Um dia comprou tremoços e disse-lhe: « - Isto é para tu comeres quando fores andando, pelo caminho.» E ela assim fez; foi andando e comendo pelo caminho. Mas a madrasta mandou a filha ver até onde iam as cascas de tremoços. A Maria da viúva verificou que iam até o palheiro onde a filha do viúvo tinha a sua vaquinha e encontrou-a a conversar com a vaquinha e esta a ajudá-la no trabalho.

    A filha da madrasta contou à mãe e esta fingiu-se doente e disse ao marido que a sua doença só se curava com um pedacinho de carne da vaquinha da Maria. O marido ficou triste porque não tinha coragem de fazer tal pedido à filha. Esta que o viu triste insistiu até que o pai lhe dissesse a razão da sua tristeza.

    Quando o pai lhe explicou, a Maria ficou muito triste e foi chorar para o pé da sua vaquinha. Também ela teve de arrancar de Maria a razão da sua tristeza. Logo que a Maria lhe contou o desejo da Madrasta, a vaquinha disse: « - Não te aflijas. Diz que sim, mas com a condição de seres tu a lavar e arranjar as minhas tripinhas. A madrasta concordou e disse: « - Quero lá saber das tripas, eu quero é a carne.» Mas a vaquinha avisou a Maria que apenas encontrasse uma varinha de condão que estava nas suas tripas, não se importasse de arranjar o resto das tripas e lavasse muito bem a varinha e a colocasse debaixo da toalha do altar, mas de modo que o padre não soubesse e que, quando acabasse a missa, fosse lá buscá-la, mas de tal maneira que ninguém visse. E disse-lhe:« - Tudo o que tu precisares tu pedes em meu nome que eu vou te conceder a graça.»

    A Maria do viúvo continuou a trabalhar na cozinha e a Maria da viúva era muito estimada.

    Chegou-se ao Domingo mãe e filha foram para a missa. E a Maria do viúvo dizia: « - Eu também queria ir à missa» As duas respondiam: « - Nem penses nisso, não tens roupa capaz de ir para a missa.» A Maria chorou e pediu à varinha de condão que lhe concedesse a graça de ter um fato para ir à missa. Então a varinha de condão concedeu-lhe essa graça. Deu-lhe um fato lindo como o Sol e ela também ficou toda formosa e foi à missa. Mas deixou primeiro elas caminharem para então ir para a missa.

    Quando a madrasta e a filha chegaram da missa contaram que tinham visto uma menina muito linda, linda como o Sol, dentro da igreja. A Maria fingiu não saber de nada e disse que tinha muita pena de não a ter visto. No Domingo seguinte, sucedeu o mesmo. E ao terceiro Domingo também, mas com uma diferença, a Maria perdera um sapatinho de ouro. Um príncipe achou o sapato e disse que casaria com a menina a quem servisse aquele sapato. O príncipe foi por todas as casas para as meninas o experimentarem. Quando ele passou na casa da viúva, o sapato serviu na filha da viúva e o príncipe levou-a para casar consigo. Mas, quando já iam embora, o cãozinho começou a ladrar e a dizer: « - Lu! Lu! Menina bonita fica em casa, menina feia levas tu.» O príncipe voltou atrás e insistiu com a madrasta até que esta confessou que tinha uma enteada, mas que era feia e não tinha roupa. O príncipe quis vê-la. A Maria do viúvo pediu à varinha de condão a roupa e o outro sapatinho de ouro que havia usado no Domingo anterior e apareceu toda linda e o príncipe casou com ela.

 

(O texto foi resumido porque está gravado e em discurso directo, o que se tornaria muito extenso)

 

    Esta é uma variante de "A Gata Borralheira» sem livro de figuras, nem cassetes com desenhos animados, porque a mulher de um lavrador não os conhecia. A história atrás referida fora-lhe contada pela sua avó (bisavó da Mariazinha).

    Hoje, no Caniço, pode não haver quem conte a história "A Vaquinha da Varinha de Condão" , mas é necessário que se continue a contar ou a ler às nossas crianças a história da "Gata Borralheira" e outras do mesmo género.

    Voltando à história das bonecas, a Rosa e a Fernanda casaram e foram para a Venezuela. As suas filhas vieram para a Madeira, compraram apartamento. Os seus netos e netas estão nos infantários. A Mariazinha conta histórias aos seus alunos.

 

Conceição Freitas

 

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