|
| |
|
CONTOS DE
EMBARCAR |
 |
"Contos de Embarcar". Falamos de um pequeno livro sobre as vivências
da emigração madeirense, da autoria de Lília Mata, jornalista e colaboradora
assídua deste site, lançado em Agosto último.
Este
segundo livro de Lília Mata venceu no ano passado o Prémio Literário Escritor
Horácio Bento de Gouveia, da Câmara Municipal de São Vicente e foi agora
editado, numa colaboração entre a autarquia e a "Arguim, Editora
Regionalista", integrado na Colecção Terra à Vista.
A
capa é de Marco António Gonçalves, numa composição sobre o quadro "A
Noiva", da artista plástica Emcarnação Baptista. Com uma tiragem de mil
exemplares, o livro encontra-se à venda nalgumas livrarias do Funchal e tem
sido igualmente divulgado nas iniciativas da Associação de Escritores da
Madeira.
A cerimónia de apresentação pública do livro teve lugar no salão nobre dos
Paços do Concelho, com a presença do Secretário regional da Educação,
presidente da Câmara de São Vicente, outras entidades, amigos da autora e público
em geral.
Simultaneamente foi divulgada a obra vencedora do Prémio Horácio Bento de
Gouveia 2002: "A dor leva tempo a consertar", de Maria Adelaide
Valente, natural de Vila Nova de Gaia e residente em Braga.
O primeiro livro de Lília Mata intitula-se "histórias do bertoldinho"
e venceu em 1997 o Prémio Literário Edmundo Bettencourt, da Câmara do
Funchal, tendo sido publicado pela autarquia no ano seguinte. Encontra-se à
venda no Teatro Municipal do Funchal.
Apresentação da obra "Contos de Embarcar"
Por Octaviano Correia
A História de qualquer povo
constrói-se e escreve-se pelas atitudes desse povo, mesmo as que, à primeira
vista, possam parecer de pouco ou quase nenhum significado. A História dos
homens faz-se de pequenas histórias, assentes nos gestos, nos procedimentos,
nas acções, nas vivências do dia-a-dia de cada homem, de cada mulher, de cada
localidade.
Não são os historiadores que fazem a História, eles
escrevem-na tão-somente baseando-se na investigação, nos documentos, nos
factos, nas gentes. Quem a faz são os povos, as pessoas que os compõem, são
os camponeses, o vendeiro, o levadeiro, os artesãos, o padre, o senhor doutor e
o João da Esquina, a modesta benzedeira ou o médico renomado, a menina
casadoira e ingénua, ou a velha viúva e conhecedora das agruras da vida.
Vem este palavreado introdutório a propósito de um livro.
Não um livro de História, mas de histórias que neste caso se chamam contos,
"Contos de Embarcar".
E giram as três histórias à volta de uma história única que é, afinal, a
imagem de um outro tempo que se foi transformando com o correr dos tempos e com
o progresso, trazido através do mar e, mais tarde, nas asas de modernas
aeronaves, muito mais rápidas que o passar da vida calma das gentes da Madeira
de outrora, carregando os sinais do mundo exterior para dentro dos limites
cercados de mar e montes que nos fecham geograficamente, modificando
mentalidades, alterando comportamentos, criando novas formas de estar e de olhar.
Com a chegada das modernas formas de comunicação, e não
estamos a falar apenas de estradas e aeroportos, mas da televisão e da
Internet, para só citar estas, a vida das populações desta ilha de verdes e
azuis pintada mudou radicalmente. Dantes ela girava à volta de um pequeno mundo
marcado pelo nascer e o pôr-do-sol. Os trabalhos agrícolas, a conversa à
soleira frente ao bordado ou das calças e das meias para passajar, as orações
temperadas, aqui e ali, com umas bilhardices. A ida à venda e, ao domingo, o
santo preceito da missa. Este empurrar quase parado da vida, as limitações
geográficas impostas pelas fronteiras verdes das serranias ou marcadas pela
linha líquida do mar lá no longe do horizonte, se, por um lado, fechavam as
mentes, por outro, aguçavam a imaginação, o sonho por paragens das quais se
contavam histórias de "el dorados" de fartura. Era o sonho de
emigrar. Partir. Enriquecer. E os homens, os jovens, entre os 16 e os 40 anos,
desertavam, da sua terra, para longínquas e desconhecidas terras: Venezuela,
África do Sul, Curaçao, na mira de uma vida futura mais prometedora. E as
mulheres, essas, ficavam. Ficavam na pacatez da sua freguesia e, muitas delas,
sentadas na soleira da porta, no refúgio das orações, na pimenta das
bilhardices, deixavam que o tempo corresse e ficavam para tias, pacífica e
resignadamente presas à monotonia da vida da sua terreola, envelhecendo
solteiras.
Mas às vezes, anos passados, os rapazes voltavam à sua
terra natal, já feitos homens, abastados e sabidos e, não raras vezes,
acontecia casamento. Ou com a noiva de outros tempos ou com rapariga casadoira
que agradasse e estivesse disposta a ver partir, logo de seguida, o homem, agora
seu marido, novamente para o lado de lá do mar.
Mas também acontecia o casamento dar-se antes de o noivo emigrar. Com o menino
feito rapaz, com quem a menina brincou nos mesmos terreiros, com quem correu nas
mesmas veredas, com quem namorou, às escondidas, por entre as sombras de um
poio de frondosas bananeiras, na hora de apanhar a erva ou na de tirar o leite
à vaca. Era o casamento e, quase logo, de carreirinha, a despedida, o choro e
as saudades antecipadas. Vinham depois as cartas, as juras de fidelidade
acompanhadas de bolívares ou de rands que sempre iam mitigando necessidades ou
permitindo pequenos luxos que, aos olhos de quem nada tinha, eram maiores do que
o mar que os trazia. Mas, como afastamento e esquecimento andam, muitas vezes,
de mão dada, longe da vista longe do coração, lá diz o dito do povo, não
raramente as juras se esqueciam, os choros voltavam a ser sorrisos e as saudades
diluíam-se no ardor de um beijo mais presente ou de uma outra jura sussurrada
junto ao ouvido, decerto bem mais convincente do que as juradas em frias folhas
de papel, trazidas por envelopes carimbados em terras distantes que nem sequer
se imaginava onde ficavam.
É pois deste pequeno mundo cheio de encantos e desencantos,
ilusões e esperanças, fidelidades e traições, que nos falam os "Contos
de Embarcar" de Lília Mata, prémio Escritor Horácio Bento de Gouveia
2001, instituído pela Câmara Municipal de São Vicente. Um prémio que ostenta
o nome de um dos maiores vultos da literatura madeirense, também ele, ou mais
propriamente, ele, o pintor maior da forma de estar e de ser madeirense. Pintor
incomparável dos nossos hábitos, senhor de uma prosa forte, com cheiro a terra
e a mar, escrita por mãos que fizeram de cada folha de papel uma fazenda e da
pena a enxada que lhes deu vida.
Um prémio que confere, a quem o ganha, a enorme
responsabilidade de o merecer. E Lília Mata merece-o.
Dos três pequenos mas deliciosos contos que Lília Mata foi beber na alma da
nossa gente, e parafraseando Luís Peixoto que deu forma à nota introdutória
que abre o livro, direi, para terminar, que "nestes ‘Contos de Embarcar’
esperamos com as personagens que esperam. Ficamos na ilha e esperamos que
cheguem notícias da Venezuela, notícias de um tempo que existe na memória e
nessas vidas que imaginamos. Este é um livro que nos enternece, que nos ensina
e que nos faz avançar pelas suas páginas como se avançássemos pelo
oceano".
E, agora, digo eu, façam dele o vosso navio e partam à
aventura, navegando com a Maria da Trindade, com o António, com a Rosairinha
com o Manuel do Carapau, com o João Abel, ou com o Milho com Couves, em busca
da identidade que nos deu o nome: madeirenses.
"Alocução proferida na cerimónia de apresentação da obra na Câmara
Municipal de São Vicente".
Octaviano Correia (escritor)
ALGUMAS NOTÍCIAS PUBLICADAS NA
IMPRENSA REGIONAL SOBRE O LANÇAMENTO DA OBRA
|
Lília
Mata lança hoje "Contos de Embarcar"
|
|
Prémio
Horácio Bento entregue em São Vicente
|
|
"Contos
de Embarcar" na Colecção "Terra à Vista"
|
| |
|