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"Contos de Embarcar" (por Lília Mata) Edição Arguim, 2002, Colecção ‘Terra à Vista’
Antigamente não havia família que não tivesse o seu "embarcado"! Geralmente eram homens os que embarcavam e, até regressarem ou até que mandassem a "carta de chamada", para os que tinham ficado na ilha era como se em todo o tempo de ausência tivessem estado, assim simplesmente, "embarcados". Para os que ficavam, numa vida feita de esperas, de sonhos e de saudades, a vida continuava, embora suspensa de regressos que tardavam, do "embarcadiço" que não chegava. E é precisamente das vidas construídas nessa espera que se trata na proposta para esta semana: os recentemente publicados "Contos de Embarcar", de Lília Mata, uma obra premiada. A escrita, pela mão de Lília Mata, assume contornos de relato de uma memória que, mais que individual, traz os sinais de uma herança colectiva, bebida na experiência pessoal e na tradição oral familiar que a sua ficção não tenta disfarçar, antes diria que assume declaradamente. Em "Contos de Embarcar", Lília Mata reafirma a sua preferência por um percurso de sensibilidade - que o seu primeiro livro, "Histórias do Bertoldinho", já deixara transparecer - e é nessa sensibilidade que nos formula um convite para que se dê uma nova dimensão aos factos, às coisas e às pessoas que, apenas aparentemente, se apresentam simples. Ou é, talvez, mais do que isso, o próprio elogio da simplicidade. Fala directamente ao íntimo do leitor que percorre os seus contos – neste caso são três contos - sobre os quais José Luís Peixoto, numa breve introdução, diz tratar-se de "um livro que nos enternece, que nos ensina e que nos faz avançar pelas suas páginas como se avançássemos pelo oceano". Demos alguns passos no encalce do percurso literário desta jornalista/escritora e o acaso fez-nos encontrar a própria Lília Mata falando de si, definindo-se: "Para mim", diz, "a escrita não é nada se não falar aos sentimentos". E adianta ainda: "Gosto de escrever sobre as pequenas coisas do dia-a-dia, gestos, rituais, pensamentos, memórias, sensações. Sobre tudo aquilo que parece pequeno, sendo afinal grande". E é sem dúvida essa disposição que transparece deste livro de contos! "Contos de Embarcar", de Lília Mata, jornalista profissional da Rdp-Madeira, que já em 1999 havia conquistado o Prémio Literário Cidade do Funchal/Edmundo Bettencourt, é distinguida em 2001 com o "Prémio Literário Escritor Horácio Bento de Gouveia", uma iniciativa da Autarquia de S. Vicente, agora editado com a colaboração da Arguim, passando a ser a primeira obra editada na novel Colecção ‘Terra à Vista’. Aceite, pois, esta nossa proposta: Embarque nestes Contos e faça uma viagem na alma e na memória colectiva de um povo de "embarcados"!
Funchal, 24 de Agosto de 2002 Francisco Fernandes |
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