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O Ferreiro do Caniço

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       Soube da existência de um ferreiro no Caniço há quinze anos, num dia em que ouvi o meu pai dizer que ia a casa dele, no Sítio da Assomada, encomendar-lhe uma foice nova, porque a outra já estava velha e não cortava bem.

        Fiquei com curiosidade em saber mais pormenores sobre essa profissão que julgava já desaparecida, e decidi fazer um trabalho sobre o Ferreiro do Caniço, para a Revista Islenha, da DRAC, na sequência de um contacto do então director, Nelson Veríssimo, solicitando que fizesse algumas pesquisas sobre ofícios tradicionais, para incluir na revista.

        Fui à oficina de José Nunes de Sousa na companhia do fotógrafo Rui Camacho e demorámo-nos aí, eu a fazer todas as perguntas possíveis sobre a profissão, e ele a captar com a máquina fotográfica os instrumentos, as fases do trabalho, os objectos fabricados.

        Gravei a longa conversa e depois decidi transcrevê-la toda, exactamente como estava, usando ainda a velha máquina de escrever que tinha em casa. A partir desse original compus o texto final, que viria a ser publicado na Revista Islenha nº 8 Jan.-Jun. 1991 pag. 137 a 141.

        Tantos anos depois, encontrei por acaso, entre um monte de papeis, esse texto batido à máquina: as minhas perguntas e as respostas do ferreiro, a conversa exacta que tivemos na manhã de 4 de Janeiro de 1990.

         Decidi passar o texto a computador e lembrei-me de inclui-lo neste site sobre a nossa terra, como registo de interesse etnográfico. Esta conversa é a memória de uma profissão que foi, desde o início da colonização da ilha, essencial para os que se dedicaram ao trabalho da terra.

                                                                                             Lília Mata

 

 

 

Nome: José Nunes de Sousa

 

Idade: 44 anos

 

Profissão: Ferreiro

 

Morada: Sítio da Assomada, freguesia do Caniço

 

Data da entrevista: 4 de Janeiro de 1990

 

Entrevistadora: Lília Mata

 

 

Lília Mata - Há quantos anos é ferreiro e como é que aprendeu a profissão?

 

José Sousa - Eu, quer dizer, eu saí da escola aos doze anos e como não pude continuar a estudar devido ao meu pai ser doente e eu tinha que angariar dinheiro para ajudar a minha mãe na nossa vida, não é... Portanto, comecei a trabalhar aqui aos doze anos e foi essa a razão porque...quer dizer, não foi bem uma profissão da minha escolha mas foi forçado, porque embora eu não gostasse muito disto mas não tive outra hipótese na altura. E assim continuei desde essa data a trabalhar com o meu tio. Mais tarde ele faleceu e eu continuei sempre a trabalhar no lugar dele.

 

L.M. - Como era esta oficina nessa altura? Havia muitas diferenças? Como é que então se trabalhava na profissão de ferreiro?

 

J.S. - Portanto, havia diferenças no sistema de trabalho, havia diferenças aqui, que em vez de uma forja tínhamos duas. Eram quatro pessoas que trabalhavam aqui todos os dias e, portanto, o sistema de trabalho era outro, que hoje usamos já umas ferramentas eléctricas e nessa altura era tudo à mão. A ferramenta era polida com uma lima, para puxar, fazer enxadas era tudo feito aqui, porque não vinha nada do continente, portanto eram feitas cá na Madeira. Era um trabalho bastante penoso e duro, mas nessa altura era a maneira como se trabalhava e não havia outra hipótese.

 

L.M. - Havia muitos ferreiros nessa altura? Lembra-se de quantos ferreiros havia aqui no Caniço, no Funchal, ou noutros locais?

 

J.S. - Do Funchal, não sei. Sei que daqui do Caniço havia mais quatro ferreiros, no total eram cinco.

 

L.M. - Lembra-se do nome desses senhores e onde é que trabalhavam?

 

J.S. - Havia dois nos Moinhos, havia um lá adiante, na Pedra Mole, havia dois nos Eucaliptos.

 

L.M. - E havia trabalho para esses ferreiros todos?

 

J.S. - Nessa altura, sim. É porque eles não se limitavam só aqui à freguesia do Caniço, como ainda hoje eu faço trabalho também para outras freguesias, mas nessa altura eles iam vender a várias freguesias, principalmente à Camacha, Gaula, Santa Cruz...

 

L.M. - Conte como era. As pessoas vinham a casa do ferreiro encomendar as ferramentas? Ele também ia, aos domingos, vender junto das igrejas, não era?

 

J.S. - A maioria das pessoas vinham cá. Mas também aos domingos todos eles arranjavam a sua cestinha de ferramenta e iam vender a vários locais. O meu tio ia vender à Camacha, havia outros que iam vender lá adiante, ao Caniço, uns em Gaula....

 

L.M. - O senhor chegou a ir vender com o seu tia? Também andou por aí a vender as suas ferramentas?

 

J.S. - Eu não andava por aí, mas ao domingo cheguei a ir com ele algumas vezes à Camacha, vender essa ferramenta que fazíamos.

 

L.M. - A ferramenta era esta mesma que fazem agora ou havia outros tipos diferentes? Faziam outras ferramentas que já não fazem agora porque já não são necessárias?

 

J.S. - Não. Continua-se fazendo sempre os mesmos modelos, embora em muito menor quantidade do que se fazia nessa altura.

 

L.M. - Portanto, nessa altura tinham trabalho para a semana toda...?

 

J.S. - Sim. Havia muito trabalho para a semana toda e, como disse, trabalhavam aqui quatro pessoas, cinco, seis dias à semana. Actualmente eu trabalho apenas, eu juntamente com este rapaz, trabalho apenas dois dias.

 

L.M. - Lembra-se ainda dos preços daquela altura, quando começou a trabalhar em ferreiro?

 

J.S. - Ora, o mais barato que eu me recordo, uma foice nova eram doze escudos e cinquenta. Hoje, está a custar 1.500$00, 1.400, 1.500. Por exemplo, uma faca era um escudo e cinquenta, um machado seis, sete escudos.

 

L.M. Que tipo de instrumentos é que faziam nessa altura?

 

J.S. - Como hoje, também, eram podoas de mato, podoas para vimes, foices, machados, enxadas de todos os tamanhos, foices também de vários tamanhos, é claro, facas para cozinha e então outras ferramentas mais fora do estilo normal que, por exemplo, para tipos que fazem colheres de pau, já têm as suas ferramentas apropriadas; os carpinteiros, nessa altura também era tudo feito, porque não havia a vender, portanto eles vinham ao ferreiro para fazer todos os modelos de escopos que queriam e outras ferramentas, enfim....machados, também de vários modelos, e enchós.

 

L.M. - O que é um enchó?

 

J.S. - É um instrumento que os carpinteiros usam para trabalhar a madeira.

 

L.M. - E ainda faz desses instrumentos? O que é que faz actualmente?

 

J.S. - Actualmente, na maior parte são foices. Também faço podoas de mato, podoas de vime, para pode de vimes, e enxadas. Enxadas eu não faço novas, mas uso as que vêm do continente para modificá-las, de maneira que se adaptem às necessidades das pessoas, não é...

 

L.M. - E é preciso fazer muitas adaptações?

 

J.S. - Não, na maioria dos modelos não é. Mas nalguns é e ainda dá bastante trabalho.

 

L.M. - Vamos começar do início. Que material é que usa para fazer estes instrumentos?

 

J.S. - Para ferramentas de corte, como as foices, as podoas, podoas de mato, navalhas para obra de vimes, isso é tudo feito em chassis de carros, os chassis de carros velhos a gente aproveita e faz isso. Os machados já são feitos das molas dos carros, os consertos de enxadas também é de molas de carros...em aço.

 

L.M. - Onde é que vai buscar esse material?

 

J.S. - Geralmente nas casas que têm sucata, ou aqueles tipos que desmancham carros e têm esse material.

 

L.M. - Eles vendem?

 

J.S. - Claro.

 

L.M. - E é caro?

 

J.S. - Não direi que seja caro em relação ao material novo, mas é caro porque...de qualquer maneira é caro porque isto é uma arte que a gente trabalha mais para o lavrador e o lavrador sempre foi, embora haja lavradores ricos, mas na maioria dos casos, pessoas que lutam pela vida como qualquer outro e portanto a gente nunca pode tirar grande proveito disso, portanto é uma arte sempre um pouco pobre, e portanto se vendemos as coisas baratas, aquilo que comprámos, mesmo barato, vai-se tornar caro.

 

L.M. - As pessoas queixam-se de que a ferramenta é cara?

 

J.S. - Nalguns casos, sim, mas a maioria não. A maioria prefere um artigo de qualidade e por isso está disposto a pagar mais qualquer coisa e não discutem. Há outros que querem as coisas baratas, enfim, sempre há alguém que venda mais barato, mas pode não ser, não ter a mesma qualidade e, portanto, não será uma grande vantagem.

 

L.M. - Disse há pouco que já não tem muito trabalho, porque as ferramentas vêm do continente...

 

J.S. - Como as enxadas, por exemplo, há muitas freguesias que usam elas tal como vêm. Há outras que esses modelos não servem para eles e portanto têm de ser modificados. Mas o que está actualmente a tirar mais trabalho é as enxadas, porque antigamente havia muito trabalho de enxadas e hoje continua-se a cavar à mão como antigamente, portanto, digamos que as enxadas foi o que tirou mais trabalho aos ferreiros de cá.

 

L.M. - E que modelos existem, vindos do continente?

 

J.S. - Existem, sei lá, uns dez, doze modelos diferentes, portanto, modelos que já são feitos de propósito para se adaptarem às várias freguesias daqui da madeira, só que que alguns não servem para....nem p´ra toda a gente servem.

 

L.M. - Explique que diferença elas têm em relação às necessidades dos terrenos daqui. Eu não percebi isso bem.

 

J.S. - Bom, por exemplo as enxadas tipo-Caniço, ou melhor, são chamadas tipo-Funchal mas são usadas cá no Caniço, vêm com um bico muito largo, que não serve para estas terras aqui que são muito pesadas e têm muita rocha. Nesse caso, é necessário estreitá-la mais, dar-lhe uma têmpera mais rija, para que se aguentem nesses terrenos.

       A enxada da Camacha é uma enxada que já é muito larga. Portanto, as enxadas que já vêm do continente vêm com menos largura e com menos grossura. Portanto, nós aqui estendemos elas para que fiquem mais largas e com menos espessura, para que se tornem também mais leves e nesse caso dêem um rendimento necessário às pessoas. Enfim, há sempre uma modificação, ou uma correcção de têmpera, enfim....

 

L.M. - O que é a têmpera?

 

J.S. - A têmpera é um sistema que a gente usa para endurecer o metal, para que ele se aguente a trabalhar no trabalho, seja ele qual for.

 

L.M. - E como é que fazem isso?

 

J.S. - Depende. Há umas que são aquecidas e temperadas no óleo e aí toma a têmpera; Há outras que é aquecido e metido na água para dar a têmpera.

 

L.M. - Que tipo de óleo utilizam nesse caso?

 

J.S. - Óleo normal, que se usa em motores de carros. Frio.

 

L.M. - Olhe, quer dizer que as enxadas são diferentes em cada freguesia da Madeira?

 

J.S. - Mesmo a freguesia do Caniço tem dois ou três modelos e a freguesia do Camacha também usa uns cinco, seis modelos.

 

L.M. - Quem é que define esses modelos? São os próprios lavradores, que trabalham a terra?

 

J.S. - Naturalmente que é sempre as pessoas que trabalham a terra que nos dizem quais os modelos que necessitam, ou trazem uma antiga para a gente ver o novo molde e enfim...

 

L.M. - Antigamente, quando começou, havia todas essas diferenças?

 

J.S. - Sim.

 

L.M. - E ainda hoje se seguem exactamente?

 

J.S. - Exactamente, pois.

 

L.M. - E essas enxadas, que vêm do continente, são mais caras ou mais baratas?

 

J.S. - São mais baratas, muito mais baratas que se fossem para a gente fazer uma enxada como era feita antigamente hoje custaria cerca de...sei lá...uma enxada normal seria à volta de oito, dez mil escudos. E as que vêm do continente, esse mesmo tipo de enxada, poderá custar à volta de 1.800, 2.000$00.

 

L.M. - Quer dizer que, mesmo mandando consertar, fica mais barato?

 

J.S - Fica sempre mais barato do que se fosse feito cá.

 

L.M. - Quanto é que custam os consertos?

 

J.S. - À volta dos 1.500 escudos. É consertado, depois é polido, tomar a têmpera, enfim...cerca de 1.500$00.

 

L.M. - E o senhor trabalha para aqui, só para esta zona do Caniço, ou também vem gente de fora? Quantos tipos de enxadas diferentes é que faz, por exemplo?

 

J.S. - Faço cerca de seis ou sete modelos. Aqui para o Caniço usamos cerca de três modelos, quer dizer, três modelos no mesmo estilo de enxada. Depois há outras mais pequenas, enfim...mas isso já não significa que seja um modelo diferente.

 

L.M. - Esses modelos têm algum nome especial, cada um?

 

J.S. - Não. As pessoas dizem: Olha, eu quero uma mais larguinha de trás, mais estreitinha da frente, mais compridinha ou mais curta, ou....

 

L.M. - Isso tem só a ver com o tipo de terra ou também com o tipo de produtos que são cultivados?

 

J.S. - Também com os produtos, mas normalmente com o tipo de terra. A terra sendo mais dura, tem que ser mais em bico; sendo mais leve, pode ser uma enxada mais larga, que dá maior rendimento.

 

L.M.- E em relação às foices e outros instrumentos? Faz muita variedade?

 

J.S. - As foices, por exemplo, não tem....a variedade que tem é nos tamanhos, que há pessoas que querem umas maiores, outras mais pequenas. O modelo é todo igual. As podoas, sim...podoas de mato, há aquela que é para mato e há um tipo que chamamos roçadeiras, que é para corte de silvado, e antigamente usava-se muito para cortar as pinhas dos pinheiros, que leva um gancho na parte de trás, enfim...esse é um modelo diferente. Dentro dessas podoas, depois há vários tamanhos, há maiores e mais pequenas.

 

L.M.- Quantos tamanhos diferentes há, em cada modelo?

 

J.S. - Quatro, cinco tamanhos.

 

L.M. - Em relação aos machados, também há tamanhos diferentes?

 

J.S. - Sim. Também há sempre quem queira um machado maior, para um trabalho mais pesado, e quem queira aquele machadinho, que é para o trabalho de casa só, que é portanto mais levezinho, um machado médio.

 

L.M. - E modelos?

 

J.S. - São mais ou menos iguais, só o tamanho é que varia.

 

L.M. Explique-nos agora, desde o início, todo o processo de fabrico de um destes instrumentos.

 

J.S. Cortamos os chassis em pedaços, como pode ver, portanto, este aqui está cortado para fazer as podoas de mato, mas cortamos outro, um pouco mais curto, para fazer as foices; os que são para fazer facas são bastante mais curtos, os das podoas também já são acima das facas e abaixo das podoas de mato, das podoas de vime, abaixo das foices e acima das facas. Quer dizer, conforme o tamanho da ferramenta é o tamanho que a gente corta. Depois cortamos aquilo às tirinhas e daí estendemos e fazemos a ferramenta que é necessária.

 

L.M. - Que tipo de instrumentos é que usa para cortar o material?

 

J.S. - Primeiro, aquecemos o ferro, depois usamos a talhadeira. O aço é colocado em cima da safra e segurado com a tenaz, quando vai a aquecer, e lá também, porque está quente. (Nota da entrevistadora: É preciso duas pessoas para fazer este trabalho. Ele segurava no material com a tenaz e ia pondo em cima a talhadeira, enquanto o ajudante ia batendo em cima da talhadeira com o malho. O aço fica às tiras.)

         Depois de cortado vai a aquecer novamente, para que seja estendido. Depois é forjar, isso que o rapaz está a fazer agora. Estender é puxar o ferro, para que ele fique assim nas grossuras. Nessa altura, já é feito a dois malhos, que é o rapaz e eu a trabalhar, fazemos isto a dois malhos e depois é feito o acabamento com um malho só. Nesse caso, já é uma pessoa só a trabalhar.

 

L.M. - Quanto tempo é que o metal fica no fogo?

 

J.S. - Cerca de um minuto para aquecer, mais ou menos.

 

L.M. - E quantas vezes é que tem que ser aquecido? No total, quanto tempo é que demora a fazer um instrumento destes?

 

J.S. - Uma foice demora cerca de três quartos de hora, para cortar e forjar.

 

L.M. - Qual é a parte mais difícil do trabalho?

 

J.S. - Acho que é tudo difícil porque é um trabalho...todo ele é um trabalho duro. A parte mais difícil é sempre estendê-lo à primeira vez; é a parte mais difícil, porque tem que ser duas pessoas a trabalhar.

 

L.M. - Quanto tempo demoram a estender o ferro?

 

J.S. - Geralmente cinco minutos.

 

L.M. - E voltam a colocá-lo muitas vezes na forja?

 

J.S. - Para estender, geralmente são três vezes e então para terminar isso já é um trabalho de cerca de vinte minutos, meia hora. Vamos aquecendo e batendo, até formar a ferramenta desejada.

 

L.M. - Como é que vão formando a ferramenta?

 

J.S. - Naturalmente...é a experiência, que nós não usamos moldes praticamente, assim como os gostos das pessoas são diferentes, porque há umas que querem maior, outras mais pequeno, cortamos o ferro uns maiores, outros mais pequenos, para que possamos servir toda a gente. Portanto, já temos uma ideia daquilo que vamos fazer, o tamanho que vai dar.

 

L.M. - Fale-nos de cada uma destas peças que aqui vemos e que têm um papel no processo de fabrico...

 

J.S. A forja é aquilo, esta parte onde está o lume. É usado carvão de pedra. Tem o fole que vai assoprar o ar para acender o carvão de pedra e mantê-lo aceso e, portanto, aquecer o ferro. Naquele braço, vamos puxando para baixo e para cima, como quem está a remar. Por cima da forja foca a chaminé.

 

Isto é o torno, que serve para tornear os cabos para as ferramentas, depois de elas estarem prontas.

 

L.M. - E para que é aquele balde de água?

 

J.S. - A água é para dar a têmpera nas ferramentas, só no final. É só uma vez. Depois de pronta, a ferramenta é mergulhada na água, para ficar mais dura e, logo, mais resistente.

 

L.M. - A têmpera fica sempre boa?

 

J.S. - Não....isto...a têmpera é uma coisa muito complicada, que até a própria temperatura do ar influencia nas têmperas. Procuramos sempre fazer as têmperas na parte da manhã, quando a água está mais frio e o tempo está mais fresco, porque assim tem uma têmpera melhor. Fica mais duro.

 

L.M. - Quanto tempo dura uma destas ferramentas?

 

J.S. - Isso depende muito das pessoas que trabalham com elas e dos terrenos onde usam. Uma enxada aqui no Caniço, nos terrenos duros, para se estragar o bico é aí à volta de três, quatro meses, tudo depende da maneira da pessoa trabalhar e dos terrenos também. Há terrenos que têm muito areão, que isso estraga a ferramenta de um dia para o outro.

 

L.M. - Aquela máquina já funciona a electricidade (torno de madeira)?

 

J.S. - Já é eléctrica, é. Antigamente era a pedal. Eu trabalhei...foi o meu primeiro trabalho...era naquilo.

 

L.M. - Até quando é que usou as máquinas a pedal?

 

J.S. - Até 1966 eu trabalhei com essa máquina. Depois nessa altura eu saí, fui ao estrangeiro mas o meu tio ficou aí a trabalhar sempre com ela. Em 82, então é que voltei para cá e pus aquilo eléctrico.

 

L.M. - E as outras máquinas, como se chamam e para que servem?

 

J.S. - Esta é um brocador, que serve para furar o ferro.

 

L.M. - Em que fase é que o utiliza?

 

J.S. - Aqui neste tipo de ferramenta até se utiliza pouco o brocador porque só nas podoas de mato e nas navalhas para vimes é que usamos o brocador. É para furar os cabos e nas podoas de mato para furar a parte de trás, onde vai encabar o cabo de madeira, que tem que levar dois parafusos, aí tem de ser furado.

 

L.M. - Costuma fazer várias ferramentas de uma vez?

 

J.S. - Naturalmente. Torna-se mais económico fazer assim, dessa maneira. Fazemos, por exemplo, 15, 20 foices e depois terminamos elas todas seguidas.

 

L.M. - Quantos dias de trabalho por semana tem agora na oficina.

 

J.S. - Cerca de dois dias.

 

L.M. - Porquê?

 

J.S. - Se ue procurasse, havia mais. Quer dizer, tinha que fazer como o meu tio: pegar numa cesta e ir vender as ferramentas às várias freguesias e encontrava mais trabalho, só que eu tenho muito trabalho de serralharia e canalização. Vou fazendo aquilo que me aparece aqui à porta.

 

L.M. - Vem gente de fora da freguesia?

 

J.S. Vem gente até de Santana.

 

L.M. - Quer dizer que em Santana já não há ferreiros?

 

J.S. - Na freguesia de Santana julgo que não, já me disseram que não. Há noutras freguesias mais perto, só que as pessoas depois de se habituarem a um certo tipo de ferramenta....isso acontece com muitas pessoas que vêm cá.

 

L.M. - Mas de qualquer maneira, a procura é muito menor...porquê?

 

J.S. - Bom, em conversa com os lavradores eles dizem que não dá conta trabalhar e criar gado porque perdem muitas horas com o gado e depois com os lucros que têm não compensa. Então, vão deixando de criar o gado.

 

L.M. - Continuando a conversa anterior....quais são as seguintes fases de fabrico?

 

J.S. - A ferramenta é desbastada na rebarbadora (rebarbar o ferro), apenas na parte da foice em que ela vai receber os dentes. Antigamente, em vez da rebarbadora, usava-se uma lima. Antigamente, ficávamos aí dez, vinte minutos a limar, a limar, até que se conseguisse endelgaçar isto. Agora fazemos em poucos segundos.

 

Depois é preciso amolar. É numa pedra especial para amolar. Tem que ficar com o corte afiado como se fosse uma faca (enquanto dá estas explicações, o ferreiro vai fazendo uma foice). Agora é eléctrica. Antigamente, era à mão. Tinha que estar aqui mais uma pessoa a dar a manivela, para a gente conseguir amolar. Eu precisava do espaço e claro que tive que tirar esse tipo antigo e mudar para este porque é mais económico.

Não era nada de especial. Era precisamente isto, só que era num bidão daqueles, que esta pedra tem que trabalhar no meio da água. Portanto, havia um bidão, em que isto era encaixado lá e em que tinha uma mão quer era uma manivela e ficava uma pessoa ali a puxar e outra aqui a amolar.

 

A seguir, fazemos os dentes. É no cavalo ou banco de picar a foice. Usa-se isto, um osso de vaca.

 

L.M. - De alguma parte especial?

 

J.S. - Tem que ser da perna da vaca. Só esse osso é que é especial para fazer isto. Depois é limado para ficar bem chão e liso. Colocamos a foice em cima disto, preso com uma corda para segurá-la, claro, e depois com este pequeno corta-frio, que chamamos o cinzel, e um pequeno martelo, vamos batendo e vai formando os dentes, dos dois lados, claro.

 

L.M. - Esse cavalo foi feito por si?

 

J.S. - Não, isto é do tempo do meu tio ainda. Já deve ter mais de quarenta anos, este cavalo.

 

L.M. - E agora? Qual é a fase que vem a seguir?

 

J.S.- Portanto, a seguir é encabar; limar aqui as costas, depois metemos o cabo, depois é entregue ao freguês. É polido, tem que ser temperado, meter o cabo... Esta parte de trás é a espiga da foice...

 

L.M. - Portanto, para encabar, aquece a espiga da foice e mete no cabo...

 

J.S. - Sim, isto faz tudo parte de encabar a foice. Agora vou dobrar a espiga, para que ela se prenda no cabo, porque presa no cabo, quando as pessoas estão a trabalhar ela não vai sair fora. Assim já está preso, está pronto a temperar.

 

L.M. - Como é que se tempera? É meter na água?

 

J.S. - É aquecer e depois meter na água, para o material ficar mais resistente....

 

L.M. - Que madeira usa para os cabos?

 

J.S. - Primeiro fazemos os cabos de madeira de louro....pode ser louro, seixo, enfim, qualquer madeira mole que não seja de estalar muito. Normalmente, eu aqui uso o ouro e o seixo. Depois cortamos aos pedaços, vai ali a tornear, depois de tornear é metido esta espiga, é metido uma armela, o que chamamos uma armela, para que o cabo não rache - é isto aqui.

Depois de metida a armela, a foice é aquecida, aquecemos a espiga da foice, quando ela está quente metemos ela através do cabo, que já foi previamente furado com um pequeno furo, metemos ela num cabo.

 

L.M. - Furado no brocador....e depois?

 

J.S. - Depois do cabo estar furado, tem de ser arrefecida a foice e depois virado a espiga, o que se chama virar a espiga, que é voltar esta parte aqui atrás...no torno, tem que vir ao torno outra vez.

 

L.M. - Para isso usa o martelo?

 

J.S. - Sim, um pequeno martelo.

 

L.M. - Só tem este modelo de cabos?

 

J.S. - Para as foices, sim. Agora para outras ferramentas, há outros modelos, naturalmente. Estes são os cabos para faças (redondos), isto são os cabos para as podoas....

 

L.M. - O senhor é que inventou esses modelos ou tradicionalmente sempre foram assim?

 

J.S. - É o modelo tradicional, que já se usa há muito, muito tempo.

 

L.M. - Estas coisas que tem aqui s