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AS FLORES DA FESTA DO SENHOR

TESTEMUNHO  

    Tinha eu, talvez, meia dúzia de anos.

    Recordo, vagamente, toda a azáfama domingueira do grupo de raparigas do meu sítio, sob a coordenação de duas ou três senhoras responsáveis pelo projecto.

    Idealizada a flor, seguiam-se várias fases do trabalho:

  • Cálculo da quantidade de material a utilizar:

- arame de espessuras diferentes (um fino para o caule das flores e um mais grosso para pendurá-las no cantão);

- papel de seda de cores predefinidas - verde, branco, cor-de-rosa, vermelho

  • O dobrar do papel para recorte em série, mediante um molde.

  • O corte do arame fino em segmentos iguais.

   O local de encontro para o grupo trabalhar, nas tardes e serões de Domingo era um velho solar - "A Casa do Senhor Morgado" - um casarão a precisar de restauro e que era cedido gentilmente pelo feitor das terras que o circundavam. O velho solar ganhava vida, porque, vazio de móveis, deixava ouvir o eco das palavras e o rodopiar de alguns passos de dança nos intervalos da feitura das flores. O vasto salão senhorial que teria sido, certamente, palco de faustosos banquetes, era o compartimento destinado a pendurar as flores, quando prontas.

    Aliado ao trabalho artesanal, misturava-se a alegria e o humor das anedotas que, na minha inocência, me faziam rir porque todos riam, mas não conseguia descodificar o verdadeiro sentido, até porque havia contenção na forma como eram contadas na presença de crianças. Surgiam cantigas populares, com «cheirinho» a despique improvisado; fados dos saudosos Max e Amália, entre outros. Não faltavam histórias de bruxas e feiticeiras que me faziam entrar no mundo da fantasia.

    Já havia rádio a pilhas, para ouvir as notícias, e, à noite, o candeeiro iluminava com a sua luz mortiça toda a atmosfera artística de mãos que, de dia, eram também mestras da agulha: mãos hábeis, capazes de construir centenas de flores!

    A tarefa para os mais novos consistia em forrar o arame com papel de seda verde, simulando o caule da flor.

    E, na última Sexta-feira de Julho, à noitinha, todo o grupo se juntava para esvaziar o vasto salão e levar religiosamente as flores enroladas em arcos para, com a ajuda de alguns homens, amarrar nos mastros da festa, conforme o projecto idealizado, procurando uma simetria que parecia «um céu aberto», no cantão do sítio do Caniço-de -baixo-prà-cidade.

Maria Madalena Andrade

 
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