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- passeio descrito por Isabella de França no livro "Jornal de uma visita a Portugal e à Madeira"
No início dos anos trinta, o coleccionador madeirense Frederico Augusto de Freitas descobriu em Londres um manuscrito que falava da ilha e adquiriu-o. Era composto esse documento por 342 páginas em papel de linho azul, a que se juntavam 24 desenhos aguarelados ilustrando o texto escrito em inglês. O alfarrabista colocara no resguardo da capa a seguinte informação: " Journal of a visit to Madeira and Portugal". Não tinha no frontispício nem em parte alguma se declarava explicitamente o nome do autor, que veio a descobrir-se ser Isabella de França, esposa do morgado José Henrique de França senhor de numerosas propriedades vinculadas na Ilha da Madeira, incluindo uma casa solarenga no Estreito da Calheta. José Henrique de França era filho do madeirense José Sebastião de França, que saiu da ilha para Inglaterra em 1792, ano em que ele próprio se declara "merchant" em Liverpool, tendo casado com uma jovem de Birmingham de nome Catherine de França. Cedo ficou órfão de pai e perdeu também o irmão. Acompanhou a mãe até à morte desta, aos oitenta anos de idade. Contava já 50 anos quando, um ano após a morte da mãe, casou com Isabella Hurst, filha de um arquitecto de nome Aaron Hurst. A noiva contava então 57 anos de idade. Foram viver para Greenwich, de onde partem no dia 23 de Julho de 1853 para uma viagem à Madeira, que considerariam como de núpcias. Essa viagem durou onze meses, registando-se o regresso a 23 de Junho de 1854. Dois anos depois mudam para Southampton, onde a 18 de Novembro de 1863 José Henrique de França passa uma procuração nomeando procuradores para venderem na ilha da Madeira todos os bens do vínculo ancestral, o que lhe rendeu mil libras estrelinas. A viagem do casal fez-se a bordo no navio Eclypse, matriculado em Londres, directamente de Inglaterra para a Madeira, onde aportou a 15 de Agosto de 1853. Isabella de França anotou todos os pormenores da sua viagem, dando vida a um manuscrito que podemos considerar um contributo importante para o estudo dos hábitos e costumes madeirenses em meados do século XIX. Afirmam os tradutores da obra, a determinado passo da introdução: "Todos os factos que prenderam a atenção de Isabella de França, desde a partida do barco, foram anotados com fina observação e às vezes excessiva minúcia. É conhecido o pendor dos ingleses - e mais ainda das inglesas - para registar as suas impressões e compor Diários que, algumas vezes, vêm a ser publicados. Não serão todos, evidentemente, escritores: obedecem apenas ao desejo de manter de forma duradoira a memória dos acontecimentos que os interessam. E, muita vez, ao lado das impressões literárias, arquivam pelo desenho elementos paisagísticos e etnográficos." (pag. 26) Cabral do Nascimento e Santos Simões afirmam mais à frente: "Tal foi o caso desta senhora de espírito curioso e perspicaz, a quem não escapou nenhum dos vários aspectos que oferece uma terra desconhecida, quer em relação aos panoramas, quer no tocante ao vestuário, usos, costumes, fauna, flora e até idioma. Que o manuscrito se destinava à publicidade, dá-o ela a entender na parte em que, escrevendo sobre a lenda de Machim, diz que esta "talvez não seja conhecida de todos os meus leitores". Ignoramos por que motivos, afinal, a obra se tornou inédita até hoje. Os olhos da autora, ora deslumbrados pelo cenário, ora atraídos pelas maneiras de ser locais, tudo fixaram para reproduzir através da pena e do pincel. E o seu modo de ver é-nos transmitido com naturalidade e desembaraço, sem perder nenhuma das belezas naturais mas, também sem ocultar as mazelas que se lhe afiguram mais repreensíveis. Pode dizer-se que o seu livro é um verdadeiro tratado da vida insular da época - dessa "belle époque" romântica que tão bem quadra à Madeira." (pag.27)
Em 1938 pôs-se pela primeira vez a hipótese de publicar o texto de Isabella de França, tendo o dr. João Abel de Freitas, então presidente da Comissão de Turismo do Funchal, posto a hipótese de aquele organismo tomar a edição a seu cargo. Dez anos mais tarde, já no cargo de presidente da Junta Geral do Distrito Autónomo do Funchal, voltou a ponderar a edição do manuscrito e encarregou João Cabral do Nascimento, então director do Arquivo Distrital, de o traduzir do original inglês para português. Em 1959 o Engº João dos Santos Simões viu o manuscrito e as aguarelas quando visitou e estudou as colecções do dr. Frederico Augusto de Freitas na Casa da Calçada. Reconheceu a oportunidade da sua publicação, que parecia então assegurada. Afinal, a edição, em português e em inglês, só veio a acontecer em 1970, a cargo da Junta geral do Distrito Autónomo do Funchal.
É no terceiro capítulo que Isabella de França descreve um passeio ao Caniço, de rede, e depois outro de barco até ao Garajau. São esses excertos que aqui se transcrevem a seguir.
"(.......) Em 15 de Novembro fomos admirar a vista do Caniço, freguesia que tem muito pouca vinha mas onde se cria e alimenta bastante gado. De lá vem grande parte do leite de que se abastece o Funchal. A estrada segue pelo Lazareto, não longe do qual atravessámos a Ribeira de S. Gonçalo e três ou quatro quintas. A Igreja de S. Gonçalo não se vê do caminho, ao passar, mas é uma coisa bonita, com residência paroquial e algumas árvores derredor, quando se olha para trás, da banda de lá da ribeira. Aí deixamos os vinhedos e entramos na direcção do cereal - não da seara madura, ondulante e cheia, pois aqui a ceifa é em, mas de escassos campos de restolho no meio de enormes blocos de pedra, os quais, sendo quase negros, fazem aqueles parecer mais tristes. Como as rochas entre as quais germina o grão se apresentam abruptas e sobrepostas, eu julguei que havíamos atingido o fim do mundo! A montanha à nossa frente dir-se-ia tocar o céu; só de a ver senti vertigens. Num dos lados da estrada patenteiam-se dois dragoeiros gigantescos, quais sentinelas colossais a guardar a passagem. Contudo continuámos a subir. No sopé da montanha tremenda supus que pés humanos não pudessem ir mais além, mas nós galgámos até a um sítio plano onde havia uma ermida arruinada. Esta parte do caminho chama-se Ladeira das Neves, porque a capela foi consagrada a Nossa Senhora das Neves, imitação de alguma dos Apeninos (16). Quase perpendicularmente até grande altura, e coroada pelos pinhais do Palheiro, ergue-se à nossa esquerda uma encosta escalvada, só com erva dispersa aqui e ali, e giestas, constituída quase apenas por terra vermelha e pedras escuras. À direita desce para o mar, que fica muito em baixo, uma porção de penedos soltos com tabaibos e silvas entre eles. Saí da rede e passeei em torno da capela, donde se avista todo o panorama do vale do Funchal, e tão perfeitamente que chegamos a distinguir as pessoas nas ruas da cidade. Trepámos ainda mais umas jardas e alcançámos o caminho desempedrado a que chamam aqui uma chã. Passámos por uma enorme quantidade de rochedos com ares de castelo roqueiro, sem faltarem ameias e torres, e chegámos à vista do telégrafo solitário do Garajau, que fazia sinais ao Ilhéu e à Fortaleza. Neste ponto a estrada tornou-se mais interessante para mim, a cada passo que eu dava, porque me fazia recordar o Hampshire: solo relativamente plano de terra vermelha, entre uma cultura densa de pinheiros, exactamente como entre Farnham e Frimley; parte dele era perfeita réplica de uma fazenda de Farnborough, que pertenceu à defunta senhora Foreman. Quando atravessámos a ponte, parecidíssima com uma que ela construiu, num sítio em tudo semelhante, imaginei-me transportada ao passado! Meu marido dizia-me sempre que me havia de levar a rever o Hampshire, e a ilusão demorou por algum tempo. Cerca de um quarto de milha seguimos ao longo do mais belo caminho, mas então ele voltou a ser outra vez mau, cheio de buracos, até que atingimos o lugar donde se avistava o Caniço. A igreja e as quintas espalhadas afiguravam-se inglesas. Além, jazia a Ponta da Oliveira, que é um cabo da outra banda do Garajau. Estava a fazer-se tarde. Regressámos com a luz do poente; as nuvens rubras e cor de âmbar entornavam os seus derradeiros matizes sobre o Funchal, doirando o mar da baía. Nasceu a lua antes que deixássemos a estrada costeira; e que bela parecia ao reflectir nas águas cintilantes a sua claridade branca e suave! Melhor do que todas as comparações que se têm feito, podemos dizer que a Lua na Madeira é como o Sol em Inglaterra; quando sobe, dá uma luz alvacenta, mas quando está em todo o seu fulgor, em vez dos frios raios azuis do luar britânico a claridade é perfeitamente amarela e tão brilhante que se podem distinguir os objectos a razoável distância. Vi, do meu quarto, as janelas da igreja do Monte bem delineadas, embora a três milhas de distância. As ilhas chamadas Desertas não estão a menos de vinte e cinco milhas do Funchal, e no entanto, em noites de luar, a sua forma é distintamente visível. Assim findou a nossa excursão ao Caniço. Meu marido tinha feito o trajecto a pé, tanto à ida como à volta. A sua resistência é motivo de admiração para os habitantes da Madeira que nunca se lembram de andar por simples prazer. Um senhor que pode ser transportado dar-se ao trabalho de caminhar! (.......)
No dia 22 de Novembro, à tarde, tomámos uma canoa e fomos a remos ao longo da costa do Leste. Passámos a Praça Académica, o Forte de São Tiago e o Lazareto, além do qual a rocha se torna tão elevada que esconde toda a visão das montanhas. De vez em quando descobre-se uma pequena faixa de praia onde é possível varar um barco, mas não há caminho acessível a pés humanos. Na escassa erva que o rochedo permite medrar, pastam algumas cabras; e aqueles focinhos a espreitar atrás de uma saliência produziam um efeito curioso. Aqui e ali surgiam manchas de cultivo. Vimos homens de pé na rocha como se fossem moscas nas lentes de um binóculo. Pareciam estar cortando erva ou a tratar dos legumes que cresciam em volta. Mas como tinham chegado até ali? Nem acima nem abaixo havia caminho, e o mistério continuou até que perguntei aos barqueiros e eles me disseram que esses homens descem por cordas, da beira do penhasco, para lavrar os bocados de terra e, feito o trabalho, são outra vez içados. Que belas as cores dessas rochas! O ponto do nosso destino era o Garajau, a que os ingleses dão o nome de Ponta de Bronze, por causa da sua cor, que mais se assemelha a cobre. Suponho, porém, que bronze soa melhor. O encarnado é o tom predominante desses alcantis, onde também há sombras de amarelo, verde, cinzento, e pedaços quase negros e misturados às vezes de verde berrante, onde existem culturas. Tudo iluminado pelo sol da Madeira, com as tintas do poente, forma um quadro magnífico. O mar estava de um azul brilhante, à superfície caracolavam ondas brancas, e o céu, por cima, não tinha nuvens. À nossa roda voavam inúmeras gaivotas, que uma vez por outra mergulhavam ou iam poisar nas rochas. Passámos o Garajau e depois voltámos para trás. Começou a aparecer o contorno prateado da lua em quarto crescente, e duas ou três estrelas cintilaram, logo que o sol se pôs. A esta luz o aspecto do Funchal é lindíssimo, porém escurece depressa. Quando chegámos apenas se via o suficiente para sair da canoa. Nesta latitude o crepúsculo é breve. Poucos minutos depois de o Sol desaparecer, só se tem a luz das estrelas e o luar. Aquelas iluminam muito mais do que em Inglaterra. Em especial o planeta Vénus traça uma esteira clara através do mar, como uma lua pequenina, e com frequência dá luz bastante para que se forme a sombra de um corpo opaco. Mas nas noites nubladas, que felizmente não são vulgares, a escuridão é mais intensa do que entre nós. O Funchal está agora muito bem iluminado a candeeiros de azeite, um dos muitos melhoramentos que se devem a José Silvestre. Diz o meu marido que, noutro tempo, (18) fora muitas vezes obrigado a orientar-se batendo com a bengala nas paredes, com risco de cair nas valetas de um pé de profundidade, formados de lajes de ponta para cima, mas que se encontram agora cobertas.
(Capítulo III, págs. 150-153)
Notas:
(16) A Capela de Nossa Senhora das Neves era uma das mais antigas da Ilha e como tal referida nas Saudades da Terra de Gaspar Frutuoso. Cerca de 1880 foi adquirida por John Blandy que a mandou reparar e guarnecer.
(18) Foi de facto no tempo de José Silvestre Ribeiro que a Câmara Municipal do Funchal mandou iluminar algumas ruas com candeeiros de azeite. No entanto, em 1850, o mesmo governador sugeria a introdução da iluminação a gás, sistema que pouco antes havia sido adoptado em Lisboa: a sua saída da Madeira não permitiu realizar este projecto e quando da visita dos esposos França ardiam nas ruas do Funchal setenta lampiões a óleo, um dois quais, precisamente, colocado à porta da Hospedaria da Rua da Carreira.
Lília Mata
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