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Já não são muitas as crianças que jogam ao pião. Mas há ainda quem ressuscite o velho brinquedo, característico da Quaresma, e o faça rodar como se tivesse magia. Antigamente, todos os rapazes jogavam ao pião. Era um dos poucos jogos "permitidos" durante o tempo da Quaresma, que devia ser mais sossegado do que as outras épocas do ano. Os rapazes jogavam ao pião e as raparigas às pedrinhas. E não eram só os mais pequenos que se entretinham a jogar ao pião. Até os rapazes "que já andam para casar" se rendiam aos encantos do pião, elegendo-o como brincadeira dos seus tempos livres. "Passava-se tardes inteiras jogando ao pião", conta Manuel Vieira, 72 anos, recordando a sua juventude. "Até se jogava a valer dinheiro." O pião pode ter vários tamanhos e é constituído por um corpo que se vai estreitando até ao "ferrão" – parte aguçada, de metal, que "anda" no chão – ficando, na parte superior, mais grossa, a "carapeta". Para jogar é preciso a "fieira", um fio que pode ter entre um a dois metros, dependendo do tamanho do pião, e que se embrulha cuidadosamente à volta deste. Começa-se pelo "ferrão", enrolando a "fieira" mais ou menos até meio, sobrando um bocado que chegue para pôr à volta da mão. Depois é pô-lo a jeito e zás...atirá-lo ao chão. A maioria segura-o na mão (antes de atirar) com o "ferrão" voltado para cima; ao jogar o pião dá uma espécie de cambalhota e lá fica a andar muito direito. Também há quem o atire com o "ferrão" voltado para baixo, que é muito mais fácil. Dizem os "pequenos": assim é "é à moda de menina". Por isso a rapaziada faz todos os esforços para aprender rapidamente a jogar com o "ferrão" para cima.
Ficam a vê-lo rodar muito atentos, como se de algo novo se tratasse, sempre maravilhados com esse pequeno mistério nascido de um simples gesto. Depois um dos rapazes aproxima-se com cuidado. Num abrir e fechar de olhos, exibe um sorriso e o pião, rodando na sua mão pequena. O pião continua a "dormir". "Já está quase acordando", ouve-se dizer alguém (também há quem diga: "Já está morrendo") e com razão. Num sobressalto, o pião desperta do seu encantamento e tomba para o lado, à espera que o atirem outra vez. Quando é bem atirado "dorme" durante bastante tempo. "Às vezes ficava-se com um buraco na mão de segurar o pião", conta Manuel Vieira. "Para ele zunir é preciso atirar com força. Então ele até queima, se pusermos os dedos." Quando não se domina ainda o jogo, pode calhar (e não raras vezes) que em vez de rodar com o "ferrão" no chão, o pião caia de "carapeta" e ensaie umas voltas desastradas. Há quem enrole a "fieira" começando pela carapeta e consiga que o pião ande direito. Perícia de alguns. Perícia ainda maior é conseguir atirar o pião com o pé. Embrulha-se a "fieira" normalmente, põe-se o pião no chão, ao lado do pé esquerdo e com o "ferrão" virado para a frente, passa-se a "fieira" por cima do pé esquerdo e depois por baixo do direito. Depois é só dar um pontapé com o pé esquerdo e é vê-lo andar que é uma maravilha.
"Roda", "Malhada" e "Quinau"
O pião também se presta a disputas em grupo. É o caso dos jogos da "roda", "malhada" e "quinau". Para "jogar à roda" cada um dos participantes (quantos se quiser) tem de ter dois ou três piões de reserva porque corre o risco de perder o pião. E se não tiver mais nenhum terá de abandonar o jogo. Primeiro é preciso desenhar no chão uma "roda" (círculo), o que normalmente é feito utilizando o próprio pião. O melhor é jogar na terra pois no cimento "ele fica corriqueiro". Quer dizer que o pião, ao andar, começa a bailar. Para desenhar a "roda", um dos rapazes segura numa ponta da "fieira", no local destinado ao centro. Outro segura no pião, onde está amarrada a fieira, e vai desenhando o círculo com o "ferrão". Depois é atirar o pião para dentro do círculo, cada um por sua vez. Se ele não andar ou por azar calhar fora da "roda", perde e vai para o meio para que todos lhe tentem acertar. Se calhar dentro da roda e ao "dar o coice" ("acordar") o pião não sair para fora, também "fica preso" para os outros "malharem": atiram a ver se o conseguem "trazer para a rua" e então ele fica livre. Mas enquanto estão lá dentro, os piões apanham muitos "feijocos" e é natural que se partam. Por isso, muitas vezes "entorta-se o ‘ferrão’ para ele bailar mais e sair da roda". Mas por outro lado é preciso arranjar um "ferrão" bem afiado para ferir os outros. "Quando ele dorme muito tempo já se fica com medo porque ele mais depressa fica preso lá dentro." Para o "Jogo da Malhada" é preciso "formar dois partidos", com três ou quatro de cada lado. Coloca-se um pião num determinado ponto e marca-se, para cada lado, um determinado número de metros. Então cada grupo começa a "malhar". Quer dizer, começam a atirar em cima do pião, uns para a esquerda e uns para a direita, conforme o lado em que se encontram. Ganha a equipa que conseguir que o pião do meio chegue primeiro ao lado oposto ao seu. O "Jogo do Quinau" pode também ser jogado por diversos jogadores. Cada um coloca um pião em determinado local e fica com um na mão para ir jogando. Mas um dos piões "arrumados" é marcado para "mandar o jogo". Todos jogam em direcção soa piões, que se dispersam. Para onde for "o que manda" têm de colocar também os outros. "Por isso pode-se começar numa ponta do terreiro e acabar na outra."
José da Trindade Quintal: Mestre na arte de fazer piões
José da Trindade Quintal, 56 anos, pega num bocado de madeira, senta-se no torno que ele próprio construiu e daí a bocado exibe um bonito pião. Não faz para vender, mas por gosto, para oferecer à criançada. Vive no Sítio da Ribeira dos Pretetes e aprendeu a fazer piões há perto de trinta anos. "Comecei a fazer piões porque um dia entendi que os piões na venda eram muito caros e havia um sobrinho meu que queria um pião", conta o senhor Josezinho, como é conhecido na localidade. "Construí um torno e comecei a fazer piões mas nunca fiz para vender. Faço porque gosto e quando um pequeno me pede eu nunca digo que não."
Aprendeu com um tal Manuel de Albino, no Sítio da Abegoaria, onde ia comprar piões quando andava na escola. Até o torno foi totalmente construído por si, igual ao do Mestre Manuel. "O primeiro torno era no sótão, com a madeira pregada às travetas. Depois fiz este, que é melhor. Mesmo assim ainda quero fazer outro, que só me falta montar." O torno é uma geringonça ("um macaco de fazer piões", diz José da Trindade) feita em madeira, com uma roda e um pedal. Ao contrário do primeiro torno, este não tem roda de madeira. Trata-se da roda de uma antiga máquina de tirar liaça. Senta-se num banco alto, de madeira, concebido especialmente para trabalhar no torno. A madeira utilizada para fazer os piões pode ser de urze ou buxo, que são as mais resistentes, mas também se faz com madeira de pereiro, pereira, cedro, nespereira, etc. Corta-se um tronco, neste caso de pereiro, com uns doze centímetros de comprimento. O tamanho do pião vai depender da largura da madeira. Com a ajuda de um "brocador" começa-se por "meter o ferrão", que pode ser um prego – com a "cabeça" para fora, que depois é cortada e limada - , parafuso ou arame. Depois José da Trindade prende a madeira nos dois lados do torno e começa a pedalar "sempre para trás, para ele andar para a gente". Então começa a trabalhar com o "escopo", único instrumento que utiliza para dar a forma ao pião, modelando sempre a partir do lado do "ferrão".
Ao longo do pião faz uns risquinhos para "dar graça", utilizando uma baleia de guarda-chuva com um cabo de madeira, solução inventada por si. Vai trabalhando até chegar à "carapeta", que faz usando o escopo, ora de um lado, ora do outro. Finalmente corta a parte restante, depois de "passar a lixa" para ficar mais macio. Terminado o pião, toca a experimentá-lo. Com invulgar perícia, o mestre atira-o ao ar e puxa a "fieira", pondo-o a andar na mão sem ter ao menos tocado o chão. "Naquele tempo ninguém queria jogar comigo que eu ganhava sempre", recorda José da Trindade Quintal.
"Às vezes fazia três piões numa hora", afirma. Mas tudo depende do tamanho dos piões. "Os que fazem piões para vender têm uma máquina eléctrica, não é como a minha." Já no final da conversa, José da Trindade sorri e mostra-nos algo especial: um pião minúsculo, pequena maravilha saída das suas mãos de artista.
Lília Mata
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