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Ao domingo à tarde, nas eiras, cheias de palha para debulhar. No Inverno, pelos cabeços e terreiros. Ou ao serão. Em noites longas a velar "um anjinho que foi para o céu". Ocasiões para jogos e cantigas que nunca mais acabavam. Que ainda se sabem de cor. São coisas de outros tempos, que permanecem na memória dos mais antigos. Recordam-nas com saudade.
Os mais jovens passavam o ano a sonhar com o Verão. Até que o sol aparecia a dourar as chamuscas de trigo. Primeiro começava-se a ouvir os risos e as cantigas dos grupos de mulheres e "pequenas" que iam ganhar dias na ceifa. Roupas coloridas matizando os campos. Versos monótonos ecoando no ar ao ritmo da foice. Mão-cheias de trigo louro aguardando na eira pelo dia da debulha.
A alegria redobrava quando se fazia ouvir o ruído característico da máquina debulhadora na primeira eira do sítio. As raparigas "não cabiam em si de contentes". No domingo seguinte, depois da missa e do almoço, vestiam o vestido de chita lavado e lá iam "para a palha". "Primeiro era sempre a eira do Ti Germano e depois a do Ti João menino, a do Ti José de Góis e a da Filomena..." , recordam Salomé e Justina. As brincadeiras da palha são agora recordadas com nostalgia. Riem-se. E os tempos da juventude parece que foram mesmo ontem. "Durante a semana quando se ia buscar água ao poço da fonte, dava-se um pulo até à Eira para nos consolarmos um bocadinho." Mas aos domingos é que era! Enquanto a palha precisasse de reviravoltas até ficar capaz de alimentar o gado, os jovens acorriam à eira com o mesmo entusiasmo. Depois passavam a outra. Em frente, sentados calmamente num bardo, os velhos punham as conversas em dia e ficavam a rever-se nos rostos corados das raparigas e nos modos desenvoltos dos rapazes. Às vezes alguém reparava num ou noutro namorico, feito exclusivamente de alguns olhares mais demorados. A "palha" era lugar para todos os jogos conhecidos. De preferência bem movimentados. "Quando estávamos bastante cansados brincávamos um bocado ao anel ou às prendas. Mas o Ti Germano não gostava nada porque queria que a palha ficasse bem debulhada." Sucediam-se as cambalhotas. "Fazíamos furados na palha, de canto a canto da eira", recorda, por sua vez, o Manuel. Tempos que já lá vão. Mas os jogos ficaram todos na memória e as cantigas ainda se sabem de cor. Há muitos anos que não se ouvem. Na escola as crianças aprendem outros jogos e em casa têm livros, televisão, computador. Além disso, já não há quem semeie trigo. Deixou-se ouvir o barulho da máquina e as eiras cobriram-se de ervas e silvado.
Outros "Jogos da palha"
Muitas vezes numa tarde se fazia o jogo do barrete. A roda bem feita, a aguardar serenamente que o António ou a Maria se resolvessem a contemplar alguém com o barrete. E um riso à socapa quando o escolhido não reparava e apanhava "uma malha com bastante força", correndo com gana à volta da roda. Um lenço fazia a mesma vez mas o efeito era menor. "Quando um rapaz gostava de uma rapariga deitava-lhe o barrete mais vezes", garantem. Os mais pequenos, que ficavam a brincar no meio da eira para não se magoarem, reclamavam a certa altura um jogo diferente. Alguém sugere o gato coitadinho. Aprovado. O meio coube à Rosa. Olhos vendados e um pau na mão. Depois a canção: "O gato coitadinho/na pontinha do pau/se não tivesse medo/não fazia miau, miau. Por isso anda a roda/ e torna a desendar/a menina que está no meio/escolhe o par que lhe agradar." Adivinhou logo. A Conceição não conseguiu disfarçar a voz apesar de ter miado quase num sussurro. O jogo repete-se. Já se ouve outra coisa: "Quem anda no meio/é bem bonitinho/para namorar/tem belo jeitinho..." Manuel aproveitou para piscar o olho à Ascensão. Ela estava no meio e em retribuição escolheu-o para a pergunta da praxe: "Queres casar comigo?" E a resposta óbvia: "Sim" Algazarra para acabar o jogo e os dois versos obrigatórios. "Uma vez os pequenos do Pinheirinho foram para defronte dizer coisas mas nós inventámos um verso... não me lembro bem mas sei que acabava dizendo que eles eram uns garotos do calhau." Justina recorda outros jogos característicos da palha. Rica Machadinha também exigia uma roda e alguém no meio que, obedecendo às ordens da cantiga, acabava por escolher um par, com quem andava de braço dado enquanto se ouvia em coro: "Vai de ramo em ramo/vai de flor em flor/vai de braço dado/ mais o seu amor." O casal continua no meio respondendo a perguntas como esta: "- P´ra onde leva a moça, ó senhor tenente? - Levo-a comigo para o continente."
Condessinha, cabra-cega, apilhagem
Entretanto, o Ti Germano continuava a remexer a palha com um forcado. Depois ia num instante apanhar um cesto de ameixas, que distribuía pela rapaziada de rosto afogueado pela correria. descanso de momentos. Porque já está tudo preparado para o jogo da condessinha . Trata-se de um jogo antiquíssimo, descrito no "Romanceiro da Madeira" pelo dr. Álvaro Rodrigues de Azevedo. A versão original era bastante diferente daquele que se ouvia até há bem poucos anos. Dos intervenientes uma rapariga faz o papel de condensa e um rapaz o de cavaleiro. Restam as filhas da condensa, que aguardam de mãos dadas e em fila. O cavaleiro colocava-se em frente da condessa. Imitando jeitos nobres, avançava uns passos sempre que chegava a sua vez de cantar. Começava: "À condessa, condessinha/ à mulher do Aragão/venho lhe pedir uma filha/destas todas que aqui estão. "Depois da recusa da condessa simulava um ar triste para dizer: "Tão alegre que aqui vinha/tão triste me vim achar/pedir a filha à condensa/condensa não me quis dar." Finalmente ele acede ao pedido com a promessa de a filha vir a ser estimada: "Volta atrás ó cavaleiro/se fores homem de bem/escolhe uma das minhas filhas/se a estimares bem." O certo é que acabava por ficar sem nenhuma delas, depois de a cantiga se repetir para cada uma. Talvez pela simplicidade, era bem popular o jogo da apilhagem. Também o da cabra-cega. Todos muito atentos para que o lenço vedasse bem os olhos do escolhido. E o seguinte diálogo, enquanto se preparavam para desatar a fugir da cabra cega: "- Cabra cega de onde vens? - Venho do Lombo do Moinho. - O que é que trazes? - Pão e vinho. - Não me dás nada? - Não. - Então anda à roda, cabra-cega." Gritos e correrias, enquanto a "cabra-cega" tentava, em vão, apanhar alguém para a substituir.
Menina que sabe ler
Com o sol a morrer para os lados da serra apressavam-se em fazer ainda mais um jogo. Desta vez a pobre e a rica, um diálogo simples cantado com ritmo. Depois das apresentações e cumprimentos, a pobre pergunta à rica o que deseja. Uma das filhas, que aguardam atrás da mãe. A pobre consente mas depois do negócio acertado: "A senhora o que lhe dá? - Dou-lhe um vestido de oiro." E com o consentimento da filha: Ela diz que se agrada, muito atira atira rá." Isto depois da recusa perante a proposta de uma simples fita para o cabelo. Quando a rica chegava a ficar com todas as filhas, estavam ambas cansadas de andar para trás e para a frente, ao ritmo da cantiga. Maria sai à porta e grita pelo nome das filhas. "- Já lá vou", respondem no início de uma última cantiga. "A laranjinha da china é doce e sabe bem/gostava de dar um beijo/no par que dança bem. No par que dança bem/agora, agora, agora/voltinhas, meninas, voltinhas/amores vamos embora." Os outros versos ecoam já pelas veredas adentro. "Para a semana é a eira da Filomena. O Ti João já disse...", lembra a Clara. Tudo se há-de repetir. E muito mais. Menina que sabe ler é uma verdadeira prova de sabedoria. Quem fica no meio tem resposta para todas as questões. Quantos peixes tem o mar? Quantos homens tem o mundo? Quantos anjos tem o céu? Quantos dentes tem a lima? E no final a mais importante: "Quem é do seu coração?" A/o eleita/o será a seguir a "menina que sabe ler". As canções nunca mais acabavam. "Borboletas brancas/ que se atir'ao ar..." ; "No alto daquela serra/ está um lenço, está um lenço/ a acenar..." ; "Eu venho de lá tão longe/ do Pico do Laranjal..."; "O jogo da laranjinha/ é feito assim ao lado..."; "O burro do meio/ está preso na estaca..." Verão quase no fim. Saboreiam-se as últimas tardes passadas na eira.
Jogos "para aquecer"
Outubro e Novembro trazem os primeiros dias de frio. Nas tardes de Inverno querem-se jogos "que sirvam para aquecer". Durante a semana era quase impossível fazê-los. Arrumar a casa, "ir com o comer", ir buscar lenha e ir à ribeira lavar ou à fonte buscar água ocupavam bastante tempo. Mas ao domingo não faltava entretenimento. O jogo do velho não tem nada de especial: "Era só enfiar uma saca na cabeça e andar atrás dos outros, a tentar apanhar alguém para ser o velho", recorda Justina Fernandes. Interrompe para falar do jogo do ferrolho. Com a ajuda de um pau faziam uma cruz nas costas de um companheiro dizendo: "Ferrolho, ferrolho, olhaste para mim, ceguei-te um olho." O pau é atirado para longe, para dar tempo de fugir, enquanto "o ferrolho" vai apanhá-lo. Depois tem de correr para bater com o pau naquele que o há-de substituir. O jogo do lume também era responsável por muita algazarra. "Quanto mais gente, melhor." Cada um ia à procura de uma pedra para colocar os pés. Depois de organizada a roda, ficava um dos jogadores de fora que, com um pau na mão, ia pedir lume: "- Aqui há lume?" "- Acolá fumega", responde o inquirido. Enquanto se dirige ao local indicado os companheiros trocam de lugar, mas sempre com cuidado para que ele não consiga ocupar uma pedra livre, de maneira a não terem de andar para cá e para lá a "pedir lume". Por vezes, o cabeço animava-se com o Jogo do Porco: uma roda e alguém no meio, representando o porco, que tenta escapar a qualquer custo. Acabava por consegui-lo, foge e acaba por ser apanhado por alguém que passará a ser o "porco". Rituais interessantes tinha o Jogo de se esconder. Primeiro, é preciso ver quem há-de contar: "Tenho um cachorrinho chamado Totó, que me varre a casa e me limpa o pó. A dona da casa chama-se Inês e o número da porta é o trinta e três." Requeria imaginação encontrar um esconderijo não muito conhecido e relativamente perto, enquanto o escolhido contava até 31. Terminava assim: "Trinta, trinta e um, atrás de mim não quero nenhum. Arrebenta as cordas que eu já lá vou." Havia sempre quem ajudasse, gritando "amarra-te" ou "solta-te", conforme a ocasião. Também no jogo da correia quente é possível dar pistas. Consiste em procurar um objecto, seguindo a orientação de quem o escondeu, dizendo "quente" (perto) ou "frio" (longe). Tardinha. Maria gasta mais uma linha no bordado, enquanto a ceia coze. No terreiro, as pequenas brincam às estátuas, ao cachorro (a história da mulher que vai pedir um raminho de salsa á vizinha e é assaltada pelo cachorro - e ao jogo do açúcar. "A mãe ia à cidade, mas destinava um trabalho a cada filha. Em vez disso, elas roubavam o açúcar." Quando a mãe chegava pedia que lhe fizessem um cafezinho e, depois de muitas desculpas, descobria a verdade. Então, "todas apanhavam uma malha, para aprenderem."
O ramalhate que arranjava um rapaz
Atenta a tudo, Maria chegava a dar sugestões para o jogo do rei e filhos. Enquanto o rei esperava pacientemente que os filhos fossem passear, estes combinavam a maneira de dizer, por gestos, o que tinham feito. Quando estavam as pequenas das redondezas, brincavam á fita, à barquinha ou ao ramalhete. "Toma lá este ramalhete/ muito bem arrematado/ vou te arranjar um rapaz/ que seja do teu agrado." Quem estava a dar o ramalhete parava um bocado, com ar pensativo e, de repente, baixava-se para dizer ao ouvido o nome de um rapaz ou rapariga, conforme o caso. Depois de dar o ramalhete três vezes a cada um, perguntava: " - Qual foi o primeiro rapaz que eu te dei para te amarrar os sapatos?" É apenas um exemplo. Era preciso imaginação. Finalmente: "Qual foi o terceiro rapaz que eu te dei para casar contigo?" Tinha mais piada quando estavam presentes os rapazes e raparigas escolhidos. "Inventavam sempre os mais desgraçadinhos do sítio, só para a galhofa. Ou davam a duas raparigas o mesmo rapaz." Ao serão, quando os pequenos estavam de pachorra, brincavam a qualquer coisa com os mais novos. Ao Jogo dos cabritinhos, por exemplo. Sentavam-se todos no chão, uns à frente dos outros. O detrás era o amo. Chegava um comprador. "Mas o amo ia deitando arremates para nunca vender nenhum. Dizia: aquele não, porque é muito bonitinho, ou porque vai à fonte e assim por diante. Até que vendia." Mas daí a pouco lá estava novamente o comprador. " - Venda-me mais um cabritinho porque o outro caiu pela rocha abaixo e ficou preso só por um pintelhinho." A conversa repetia-se até ficar com todos. No fim, era uma berraria, à volta do novo amo. Nos tempos que antecediam a Festa não havia tempo para brincadeiras. Toda a gente ajudava nas lides da casa e nas amassaduras de pão e de bolo ou na morte do porco. Mas valia a pena. Nunca mais esquecem as noites inteiras passadas no bailarico e os despiques com vozes já roucas. Novos e velhos. Bandos que iam de casa em casa ver as lapinhas e provar os licores e doces da Festa.
Jogos divertidos no velório dos bebés
O menino tinha dois anos quando morreu. Não havia motivo para tristezas, afinal era um anjinho e foi para o céu. Eram noites de divertimento as que passavam a acompanhar a criança morta. Repetiam-se os jogos da correia quente, do anel, da manhã e das prendas. Estes dois concentravam as maiores atenções, em especial o das prendas. Depois do longo ritual até a caixeira ter todas as prendas, vinha a parte mais engraçada: as sentenças. Era levado tão a sério que havia quem fosse à fonte buscar água. Bastava que fosse estabelecido: "A primeira prenda que daqui sair vai à fonte buscar um aguador de água." Muito se ria durante o Jogo da manhã. Um jogador ficava com a cabeça deitada no colo de outro, com uma mão nas costas, com a palma voltada para cima, e tentava adivinhar quem lhe batia na mão. Não era tão fácil como parecia, especialmente porque se fazia de tudo para o enganar.
Jogos sossegados durante a quaresma
No primeiro dia da Quaresma, Maria obrigava os rapazes a guardarem na caixa a viola, a gaita, a braguinha e o machete. Era uma tristeza. Mas era assim e pronto: nada de cantorias com a semana santa à porta. Em contrapartida, ressuscitavam-se os velhos piões, que passavam a entreter os rapazes tardes inteiras. Também brincavam à espadinha, um jogo de perícia no qual se usavam dois pauzinhos, e à milhada. Ou faziam joeiras de papel colorido, visgueiras para andar aos ninhos, motos de pau e andilhas.
Só na palha é que rapazes e raparigas se juntavam nos mesmos jogos. Ou quando chovia e brincavam todos à bisca pelo serão dentro. Na quaresma as raparigas entretinham-se a brincar às pedrinhas: "As mãos ficavam todas magoadas mas passávamos tardes inteiras a brincar com bagas de eucalipto ou pedras de terra amolada." Às vezes, à noite, os rapazes pegavam nos instrumentos e tocavam bem baixinho uma moda qualquer. Maria zangava-se. Mas a desculpa era: "Estamos a afiná-los." Mas logo chegava a Páscoa. Ninguém esquecia o ritual do balamento. Quem perder paga as amêndoas, figos, amendoins e tremoços. No fim, acaba por ser dividido por todos. Dia de Páscoa à tarde, quando as famílias se encontravam no Pico para o tradicional piquenique, repetiam-se jogos e cantigas. E havia alegria. Depois do corte dos vimes era preciso descascá-los. Bandos de homens e mulheres juntavam-se para trabalhar. Surgiam as anedotas e novas cantigas. os mais pequenos aproveitavam as cascas dos vimes para entrançar e fazer balanços, que penduravam numa árvore qualquer. Entretanto, tudo podia ser transformado em motivo de brincadeira. Faziam-se romagens e procissões, com pendões, aleluias e vestidos de folhas a fingir anjos. As raparigas bordavam em folhas de couve com espinhos de limoeiro e faúlhas. E tinha-se uma juventude feliz. Apesar dos pés descalços e dos vestidos de chita todos remendados.
Lília Mata (Trabalho publicado no "Diário de Notícias" do Funchal, na sua edição de 25 de Dezembro de 1989. )
Nota: Algumas das pessoas que contribuíram com as suas memórias para as recolhas que resultaram neste trabalham já faleceram. É o caso de Maria Jesus Ornelas (falecida em 1996) Salomé Fernandes (falecida em 1999) e Manuel Vieira, falecido recentemente (Setembro 2002). A todos um obrigado especial. |
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