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Na adolescência é normal um jovem lutar pela sua
auto-afirmação. Eu não fugi à regra e, lembro-me de, num dos natais, querer
fazer um presépio «à minha maneira». Até certa altura, a minha mãe costumava fazer a sua «lapinha de escadinhas», pelo Natal, na sala, numa mesa encostada à parede e integrada num grande arco de alegra-campo, formando meio círculo. Sobre a mesa, um conjunto de três escadas, que eram cobertas com papel colorido, preenchidas com fruta e cabrinhas e ladeadas por jarrinhas com ensaião e solitários com «junquilhos», entronizava o Menino Jesus, retirado da redoma de sobre a cómoda do seu quarto, onde permanecia todo o ano, acompanhado de Nossa Senhora do Monte do Carmo do lado esquerdo e Santo António do lado direito, cada qual dentro da redoma respectiva. Claro que a do Menino era maior. Estas imagens, além de receberem a veneração de uma cristã devota, ostentava o zelo com que as preservava, pois tinham-lhe sido oferecidas no dia do casamento.
Mais
tarde, as minhas irmãs, na sua juventude, construíam o seu presépio de papel
pintado – Rochinha - na sala, modificando-o de ano para ano na
estrutura e composição exterior; armavam casinhas, construíam um prado com
ovelhas, um lago com patos, etc., mas nunca esquecendo, como era hábito em
todas as rochinhas, o Menino Jesus, retirado da redoma e colocado de pé, no
cimo da rocha, e ainda um outro Menino, deitado nas palhinhas.
Perguntam-me
por que razão, se colocava um Menino deitado e um já grande, de pé. Essa foi
a questão que me levou, aos 15 anos a uma dissidência com a minha mãe. Eu não
achava lógico que o Menino acabado de nascer já estivesse de pé. A minha mãe
pôs termo à discórdia, declarando que faria a sua lapinha, no seu quarto com
o Menino de pé, sobre a cómoda, no seu quarto e eu faria a minha rochinha,
como eu entendesse. A
propósito do Menino Jesus de pé, encontramos em Presépios
e Meninos Jesus de Ontem e de Hoje, de José Sainz-Tueva, o seguinte: «No
período carolíngio e na época romântica, a manjedoira transforma-se em
altar. (...) As escadinhas, de três ou mais degraus, tendo no topo a imagem do
Menino Jesus (...) ladeada por jarrinhas de oratório e «solitários» com
flores de ensaião (aenium arboreum) e de papel, colocam-se sobre uma cómoda ou
mesa previamente forradas.» Portanto, este
modo de apresentar o Menino Jesus, no Natal, poderá ter vindo desde a
Idade Média e ressurgido no século XIX, com o gosto romântico pelas raízes
medievais.
Ainda sobre a mesma questão, o Padre Eduardo Nunes Pereira (Ilhas de Zargo) afirma: «o nosso presépio não foi sempre a
Rochinha. Durante mais de um século se entronizou o Menino Jesus em escadinhas
ou pirâmides aos degraus, o que ainda é costume generalizado entre camponeses.
De há menos de cinquenta anos para cá é que
se generalizou o gosto pelo presépio de rochinha». Em
1991, em Santa Cruz, uns alunos meus de 7.º ano encontraram, para esse tipo de
lapinha, a denominação de Altar do Menino Jesus. Parece de facto um
altar. E, não é de admirar que tenha sido uma forma de o cristianismo
substituir um dos costumes pagãos, na antiguidade clássica, já que Gregos e
Romanos prestavam culto, em determinadas datas, aos deuses domésticos (Lares e
Penates) a quem erigiam um altar, nas casas particulares. Portanto era natural
que os cristãos fizessem um altar ao seu menino Deus. Mas tudo isto carece de
estudo com rigor histórico. Quando
estava no segundo ano da faculdade, fui convidada por uma professora de Alemão
para, com uma das minhas irmãs, armarmos, na Delegação de Turismo, uma
lapinha de escadinhas, segundo a tradição madeirense. Depois de pronta essa
lapinha, ouvíamos algumas expressões das pessoas que passavam, como: - «Olha
a lapinha da avó!». Houve até uma senhora que foi às floristas comprar um
sapatinho (flor) e veio oferecer ao Menino Jesus. A
partir dessa data, passei a interessar-me por esta tradição. E, desde o Natal
de 1990, com a ajuda dos meus alunos, professores e auxiliares de educação,
passámos a armá-la na escola. Já a instalámos em diferentes bases: sobre uma
cómoda, sobre uma mesa com toalha branca e sobre uma mesa forrada com uma
colcha vermelha de seda adamascada e toalha branca de renda ou de «bordado
madeira». No
que respeita às searas e à fruta, nunca foram motivo de discordância, mas
recordo-me que a tarefa de demolhar as sementes e metê-las na terra pertencia
à minha mãe. Eu optava por plantas das rochas, hera, etc., por me parecerem
mais naturais e diferentes. Enquanto adolescente, não me lembro de questionar a
razão de se colocar as searas e as frutas, mas quando me interessei pela sua
simbologia, a minha mãe possuía a sabedoria popular e o sentimento cristão
suficientes para me responder desta maneira: -“Tanto
a fruta como as searas, colocadas no presépio ou na mesa, significam o
agradecimento a Deus pelas colheitas deste ano e a esperança para o próximo”.
O
arquinho de flores de papel, frisado manualmente, para aureolar a cabeça do
Menino Jesus, só vi a minha mãe fazê-lo em 1991. Se ela o fazia antes, eu não
lhe dava atenção. Agora, faço-o com muito carinho e até já motivei os meus
sobrinhos-netos na sua confecção, para manterem o costume da sua bisavó.
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