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Lenda da Enseada dos Reis Magos

 

    A Enseada dos Reis Magos é hoje um centro de atracção turística e um dos locais predilectos para os amantes do mar. As estruturas balneares têm vindo a ser melhoradas e são muitos, mesmo de fora da freguesia, os que escolhem os Reis Magos para passar de forma descontraída os seus dias de férias.

    No Verão, já quase à noitinha, a temperatura ainda é agradável e apetece lá estar, nem que seja só para tomar um café e repousar a mente olhando para o mar. A "promenade", construída há alguns anos pela Câmara Municipal de Santa Cruz, convida a um passeio a pé para oeste, quase até ao local onde se erguem as ruínas do antigo Solar dos Reis Magos.

    São sinais que nos falam de outros tempos. Antes das estradas, na época em que o escoamento dos produtos da terra e o abastecimento das populações eram feitos por mar, a enseada dos Reis Magos teve outra importância para toda a freguesia. Ali existiu um núcleo habitacional significativo, como mostram os restos de algumas casas, incluindo mercearias e padarias.

 

Algumas habitações, quase em ruínas, são o que resta do período áureo da aldeia dos Reis Magos.

   

   Foi também um centro piscatório, dali partindo os pescadores do Caniço para a sua faina. Num artigo publicado no Diário de Notícias, em 1983, Raimundo Quintal refere que na aldeia dos Reis Magos chegaram a existir sete mercearias com taberna e quatro padarias, albergando em 1909 cerca de 95 pescadores. O pão ali feito era vendido para o Caniço, Gaula e Palheiro Ferreiro.

    No porto dos Reis Magos embarcavam para o Funchal cana, cebola, cenoura e outros produtos cultivados nas regiões próximas e desembarcavam, vindos da cidade, os produtos que a terra não dava: tecidos, azeite, farinha, petróleo, milho, etc.

    A decadência da aldeia dos Reis Magos começou por volta de 1913 com o aparecimento do automóvel e a construção da estrada que atravessa a freguesia, embora tenha conhecido um certo ressurgimento na década de 40. A Segunda Guerra Mundial e a pesca do cachalote, ensinada pelos açorianos (chegou a haver uma fábrica no vizinho Garajau) terão contribuído para esse ressurgimento, ali habitando mais de cem pessoas.

 

Ainda sobrevivem pequenas embarcações de pesca nos Reis Magos. Mas nada que se compare com o passado.

 

      A Lenda da Enseada dos Reis Magos localiza-se algures no tempo em que essa aldeia estava cheia de vida. A Lenda é referida por Manuel Ferreira Pio na sua obra "Santa Cruz da Ilha da Madeira" e contada pela escritora Maria Lamas no seu livro "Arquipélago da Madeira, Maravilha Atlântica" (págs. 217/217).

    Aqui fica a história da menina Alexandra, escrita com as palavras de Maria Lamas:

 

    "História profundamente humana: uma mulher que se vê sozinha, a meio do caminho da vida. Mortos os pais, divididos os modestos haveres, dispersos os irmãos pelas terras para onde se emigra, ei-la completamente só na casa em que nasceu e passou os anos de menina e jovem, numa existência familiar tranquila, em feliz mediania. Se teve sonhos de amor, ninguém lhos conheceu. Mas teve, com certeza, o sonho da felicidade que está no coração e na própria natureza de todos os seres humanos. E esse fracassou... Nem feliz nem infeliz a julgavam, pois que a não viam alegre, mas também não lhe faltava o indispensável para se manter. Era uma mulher metida consigo, a ponto de a terem por altiva: lá o que se passava no seu íntimo só ela o sabia. E sofria, afinal, a Menina Alexandra, como o povo lhe chamava. Sofria a amargura da solidão e os pavores das noites insones.

    A habitação, que outrora fora preciso aumentar para a família que nela ia crescendo, tornou-se tão grande e sinistra para a sua única moradora que passou a ser uma casa assombrada por todos os medos – o dos ladrões, também. Contra esse, que se tornava uma ideia fixa, já doentia, resolveu ela acender um candieiro de petróleo, que colocava junto da janela da sala contígua ao seu quarto, para que, vendo a luz acesa, qualquer malfeitor se detivesse, julgando que havia gente levantada. E muitas vezes havia, que a menina Alexandra, quando não conseguia dormir, preferia movimentar-se na casa, como se fugisse do seu próprio espectro.

    As noites iam passando. Era a angústia das noites que marcava o tempo, para a habitante solitária da casa iluminada até de manhã, - única em toda a costa. E nada sucedia. Até que, certa vez, alguma coisa aconteceu.

    Grande temporal se levantara no mar e julgava-se perdido um dos barcos de pesca saldos daquele porto para a sua faina. Já todos os outros haviam regressado, mas ninguém dava notícia do que faltava. A pequena povoação estava cheia de choros, lamentos e preces. Toda a gente rodeava a família dos pescadores que tardavam, querendo dar-lhes esperança, mas...Cerrava-se a noite; as ondas encapelavam-se mais e mais; e o barco não vinha.

    Até que alguém deu um grito alviçareiro: a embarcação tocara no calhau. Todos à uma, correram os homens a dar ajuda aos companheiros. E o barco varou na praia. Meia morta de fadiga e ansiedade, as roupas encharcadas, a companha pisou, finalmente, terra firme.

    Por entre as exclamações do susto mal desvanecido ainda e da alegria instintiva de todos, os recém-chegados disseram que deviam a vida à luz da menina Alexandra – aquela luz que tantas vezes guiava os barcos dos Reis Magos, indicando-lhes a direcção em que podiam entrar no porto, sem risco de embater nos rochedos.

    Os outros pescadores concordaram. Todos conheciam a luz, pequenina mas protectora, que lá estava sempre no mesmo sítio, mal anoitecia.

    Soube-se então o que aquela luz representava para as embarcações que demandavam terra depois de escurecer: era o farol humildes dos humildes trabalhadores do mar. E logo a menina Alexandra ficou aureolada de simpatia.

    Quando lhe contaram o que os pescadores diziam, foi como se a sua própria vida se iluminasse. E tudo se transformou. O gesto de acender o candieiro todas as noites passou a ter um sentido diferente: já não era medo – era o desejo de ser útil aos pescadores. E demorava-se por detrás das vidraças, procurando distinguir no mar o vulto de algum barco retardatário.

    Aquele interesse passou a ser, para ela, uma espécie de presença reconfortante. Estivesse onde estivesse, logo que escurecia, a menina Alexandra regressava a casa, para que a sua janela brilhasse no negrume. Considerava esse acto o mais importante da sua vida. E cumpria-o com o fervor de uma devoção profunda. Mesmo que se desencadeasse um temporal, não havia forças humanas que a detivessem. Mais duma vez desceu do Caniço, onde costumava visitar pessoas amigas, para vir, sob chuva e vergastada pelo vento, correndo o risco de resvalar na íngreme ladeira, acender a sua luz. Talvez andassem ainda pescadores no mar...."

In: "Arquipélago da Madeira, Maravilha Atlântica",

Maria Lamas (págs. 216/217)

 

Lília Mata

 

 

 

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