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A freguesia do Caniço segundo   Manuel Ferreira Pio right.3.jpg (21425 bytes)

 

    É uma das mais antigas paróquias da Madeira, cuja criação remonta ao ano de 1438 ou 1440. Era terra coberta de carriços, quando foi encontrada, sendo o seu nome uma corruptela da planta dos carriços. Foram seus primeiros povoadores os Ornelas, Gaviões, Salvagos de Génova, Regos, Martins Moniz e outros.

    A Ribeira do caniço era a linha divisória das duas Capitanias do Funchal e Machico, sendo a Ponta da Oliveira, o nome de uma estaca daquela árvore trazida do continente par servir de marco divisório das duas Capitanias da Madeira.

    Até fins de 1835, pertenceu esta freguesia ao Concelho do Funchal, sendo nesse ano incorporada no Concelho de Santa Cruz de cuja Vila dista 8 quilómetros.

    Ao princípio teve duas igrejas: uma na margem esquerda da Ribeira, dedicada a Santo Antão; outra na margem direita, da invocação de Espírito Santo, ambas, porém, com o mesmo pároco.

    O Padre José Lomelino Barreto que lá paroquiou, durante 40 anos, ofereceu o terreno par a edificação da actual Igreja, sucessora das outras duas primitivas, que se arruinaram. A Primeira pedra do actual templo paroquial foi benzida em 02 de Agosto de 1779, sendo a nova igreja solenemente benzida em 28 de Outubro de 1783. A lápide que se conserva no frontespício é do seguinte teor:

" Sancto Spiritui Paraclito atque divo António Abbati sacrum Maria 1ª lusitan, regina fidelis equestris D. N. J. C. ordinis gubernat aedificavit: insulano tribunali regio curante. Anno CIC.IDCCLXXX regni autem III"

    Gaspar Frutuoso, referindo-se ao Caniço, em 1590, escreveu:

" Daqui adiante quase meya légoa esta huma aldeya de duzentos fogos, com huma igreja da inovação de SpiritoSancto, que se chama o Canisso, em huma ribeira que corre do Norte par o Sul, acompanhada de muitas vinhas de muitos vidonhos e de boas malvasias. Ao mar desto logar está a Ponta da Oliveira, onde se plantou huma baliza da repartição das duas Capitanias, que por esta ribeira se partem, ficando a de Machico ao Nascente, e a do Funchal ao Ponente, e por ela dizem que vai a demarcação da borda do mar do sul até à outra banda do norte; porque deste Canisso até o longo do mar haverá um quarto de legoa, onde está a porto em que se carrega tudo o que há nesta parte. E se chama Caniço de baixo, respeito do outro que Caniço de Cima é chamado."

    Os primeiros habitantes povoadores do Caniço, residiam pelas duas margens da Ribeira que era a linha divisória das duas Capitanias. Em cada uma daquelas margens existia uma igreja : na margem esquerda ou seja do lado pertencente à Capitania de Machico, a igreja de Santo Antão; na margem direita, que era limite leste da Capitania do Funchal, a igreja do Espírito Santo. Os terrenos que ficavam na margem esquerda constituíam o sítio chamado do « Caniço de Cima par Machico », os da margem direita, denominavam-se « sítio do Caniço de Baixo para a Cidade ».

    Os ofícios do culto celebravam-se, alternadamente, nas duas igrejas, embora tendo a servi-las um único pároco, que se intitulava, por exemplo, em 1538, « vigário das Igrejas do Caniço», as quais constituiam apenas uma e a mesma Paróquia – do Caniço.

    Arruinada a igreja do espírito Santo localizada na margem direita da Ribeira, passou o serviço do culto a fazer-se, unicamente na igreja de Santo Antão, localizada na margem esquerda do referido curso de água. Já então existiam divergências entre os habitantes das duas margens da ribeira, que perduraram até a unificação das duas igrejas numa só, que é a actual, inaugurada e benzida, como se escreveu em 1783. Pelo Decreto de 10 de Dezembro de 1867, foram extintos alguns Concelhos da Madeira entre eles o de Santa Cruz passando as freguesias do caniço e Camacha par o Concelho do funchal. Estas freguesias voltaram, pouco depois par o Concelho de Santa Cruz quando este foi, de novo, restabelecido.

    Porém, os habitantes do caniço e Camacha, pediram, por mais de uma vez, a respectiva anexação ao concelho do Funchal, petições essas que jamais obtiveram deferimento.

    O Caniço pertenceu inicialmente ao Concelho de Santa Cruz, posto que o seu nome vem mencionado na Vereação Municipal de 24 de Novembro de 1515, do seguinte modo:

    « - Acordam – os da Camacha – que quarta-feira vão ao Canisso aprovar os caminhos do Concelho e que Jorge Lourenço vá lá por sua informação deles»

    Consta que o primeiro moinho que existiu na Madeira, construído em vida de Zarco, localizava-se na freguesia do Caniço, no sítio actualmente chamado de Azenha, o qual era uma rudimentar e primitiva fábrica de moer cereais. Foi nesta freguesia que existiu a maior produção de cebolas. A primeira escola que ali se criou foi no ano de 1821, par o sexo masculino. A mais antiga levada da Madeira é a da Azenha, cujas águas moviam o primitivo moinho que ali se construiu em vida de Zargo. Tem outras levadas, nomeadamente a do Pico do Arvoredo e a de Baixo, propriedades de hereus. A levada do Pico do Arvoredo tem Estatutos publicados em 1877.

    A freguesia do Caniço dista 8 quilómetros de Santa Cruz e 9 do Funchal. A principal ribeira que era linha divisória das duas Capitanias, bem como as suas levadas, nascem na freguesia da Camacha.

    Ali se deram alguns acontecimentos de vulto, nomeadamente durante as Lutas Liberais e durante as reuniões das Juntas de Paróquia. As duas referidas igrejas achavam-se arruinadas em 1778.

    Os pescadores madeirenses que exerciam suas fainas nos mares das Ilhas Desertas, aportavam quase sempre ao Caniço; por isso, os trabalhadores de caça e de pesca eram quase sempre recrutados no Caniço.

    Teve o Caniço alguns Morgadios, nomeadamente o da Consolação, de que foi último representante Aires de Ornelas de Vasconcelos, o qual foi instituído no século XV, por Álvaro de Ornelas e que era um dos mais antigos da Madeira; os instituídos por João Afonso, Matos Coutinho e Vasco Martins Moniz.

    O Caniço cedeu parte da sua área territorial à freguesia da Camacha, em 1676.

    O primeiro porto do Caniço é o dos Reis Magos e o segundo o do Portinho.(...)

    O relógio da torre da actual igreja do Caniço foi ali colocado em 1931.

    Existiram nesta freguesia, as seguintes capelas e ermidas:

    Nossa Senhora da Salvação, edificada em 1614, por Francisco Morais de Aguiar, hoje em ruínas no sítio dos Moinhos;

    Ermida da Madre de Deus, no sítio deste nome, construída no século XVI, pela família Salvago;

    Nossa Senhora do Livramento, levantada por Sebastião de Oliveira, em 1660, a qual deu o nome ao sítio onde se encontrava. Era centro de concorrida romaria e piedosa devoção;

    Existiram ainda as Capelas de Nossa Senhora da Esperança e de Nossa Senhora do Caminho, ambas edificadas em datas que não pudemos averiguar nem os nomes dos seus instituidores. A Capela de nossa Senhora da Consolação, foi fundada por Aires de Ornelas de Vasconcelos em 1591. Ali esteve desterrado o morgado Agostinho António de Ornelas, onde faleceu em 1774. (...)

In: Manuel Ferreira Pio, Santa Crus da Ilha da Madeira

 

Pesquisa e fotos : Webmaster Rui Gonçalves

 

 
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