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SAUDADES  DO  DIA  DOS  MASCARADOS

    Era de manhã ainda, por volta das dez. A massa das malassadas estava a levedar ou nem estava sequer amassada e já ouvíamos no terreiro o barulho dos mascarados. Traziam roupas velhas, lenços na cabeça, botas ou pés descalços. Nós saíamos à rua com a minha mãe, se ela não estivesse tínhamos medo, e tentávamos adivinhar quem seria aquele mascarado.

    Àquela hora eram sobretudo crianças. Só de uma casa vinham cinco ou seis, sozinhas ou em grupos de duas ou três. Por vezes apareciam uns agora e outros daí a bocado com a mesma máscara e alguma variação na roupa. A minha mãe reconhecia-os logo. Às vezes era pelo modo de tossir, pelo riso , ou pelos olhos claros atrás da máscara. Se as malassadas não estivessem prontas a minha mãe dizia-lhes que voltassem mais tarde e era certo que voltavam.

    Ficavam parados no terreiro enquanto nós lhes mediamos a altura e a gordura e reparávamos nas mãos e na cor dos olhos. Depois a minha mãe dava a sua sentença. Era divertido aquele jogo de adivinhar. Adiantávamos um nome e ficámos à espera de uma reacção do mascarado. Era aí que muitos se denunciavam e por vezes acabavam até por tirar a máscara para comer mais à-vontade a malassada que a minha mãe lhes dera. Muitos traziam um saco e preferiam levar as malassadas para casa. Era esse o objectivo daquelas visitas do dia dos mascarados: pedir malassadas e sonhos.

    A minha mãe só fazia malassadas e eram tantos os mascarados que tinha de fazer imensas para chegarem para todos eles e para nós também, dia de mascarados não havia outro almoço. Ouvíamos "prrr, prrrr, prrrr", era esta a linguagem deles, e avistávamos ao longe mais um grupo de mascarados. Sem esconder o entusiasmo, ficávamos a vigiá-los, vendo-os aproximarem-se à medida que percorriam a vereda, fazendo as contas das casas onde entravam, desejando que chegassem rapidamente à nossa.

    À tarde chegavam os "mascarados grandes", jovens e adultos. O número ia aumentando com o passar do dia, não nos podíamos distrair para não nos perdermos na conta, e depois comparávamos a soma com a do ano anterior. Às vezes surgiam na cara dos mais velhos máscaras que já tínhamos visto de manhã, a ocultar o rosto de um irmão mais novo. Ou seria apenas coincidência? Afinal, muitas máscaras daquelas tinham estado à venda nas mercearias das redondezas e nas lojas da cidade.

    Quando os mascarados chegavam ao canto do terreiro para irem embora começavam a discutir, na sua linguagem incompreensível, o caminho a tomar. Levantavam o pau e apontavam numa direcção, depois noutra, faziam gestos. Por vezes era difícil entenderem-se. Acontecia estarem uns de partida, outros a chegarem e cruzarem-se todos nas passadas ou na vereda. Era uma confusão.

    Havia uns mais descuidados, disfarçados com um simples capote e umas botas de água, mas com a cabeça bem tapada e luvas nas mãos para não serem reconhecidos. Outros traziam vestimentas bem mais elaboradas. Lembro-me de ver um casamento e um baptizado, muito tarde porque já se tinham andado a divertir pela Camacha. Uma vez, era noite alta e já estávamos na cama, ouvimos um barulho e o terreiro tinha-se enchido de mascarados. Zangaram-se quando o meu pai lhes perguntou se queriam malassadas. Nada disso. Mostravam uma palhinha e faziam sinal de beber, queriam era vinho. Fiquei admirada com aquela ideia da palhinha porque nunca tinha visto nenhuma, mas não há dúvida de que era o ideal para beber sem tirar a máscara.

    Um dia na escola primária a professora ensinou a fazer um chapéu de cartolina, pontiagudo, tipo chapéu de fada. Trouxe o chapéu para casa e meteu-se-me na cabeça que queria disfarçar-me. Foi a primeira e única vez. Insisti tanto que a minha mãe disse, está bem, podes ir com a tua irmã a casa da Prima Ali. Ali porque vivia mesmo ali ao lado e um dia ouvíramos a minha avó dizer ao meu avô: "Eu já venho, vou casa da prima, ali, num instante." Nós baptizámo-la Prima Ali e assim ficou.

    Vestimos umas roupas diferentes, tapámos a cara com uma meia- calça da minha mãe e lá fomos. O caminho era curto mas não conseguimos fazê-lo sem encontrar outros mascarados. Foi no cabouco. Ficámos paradas uns segundos e desatámos a correr para casa. Daí a pouco fizemos nova tentativa e voltámos a fugir quando ouvimos "prrr, prrr, prrr", nem tivemos tempo de perceber de onde vinha o barulho. Finalmente a minha mãe foi passar-nos e nós fomos a casa da Prima Ali. Ela deu-nos uma malassada que nós trouxemos para casa mas não comemos, só gostávamos das da minha mãe, da minha avó e da minha tia.

    Todos os anos, enquanto esperávamos a passagem dos mascarados, recordávamo-nos daquela vez em que dois mascarados tiveram medo de outros mascarados. E todos os anos nos ríamos da cena, ali à volta da mesa, debruçadas sobre o alguidar, enquanto a minha mãe ia mexendo a massa das malassadas. Com o passar dos anos começaram a passar cada vez menos mascarados. Até que um dia não passou nenhum. Esperámos o dia todo, foi um dia longo, e eles não vieram. Ficámos só com as malassadas da minha mãe, as melhores de todas, e com estas recordações.

Lília Mata

    Nota: Assisti a este desfilar de mascarados, ano após ano, na casa dos meus pais, numa parte do Sítio da Ribeira dos Pretetes conhecida por Pomar ou Achada do Capitão. Mas devia ser igual em todos os sítios, o mesmo entusiasmo da espera, o mesmo ritual, a mesma linguagem para pedir malassadas ou sonhos. O Carnaval era diferente, tinha outro sabor.

 

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