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A infância foi o tempo dos ninhos. Acabou exactamente no ano em que a papinha deixou de fazer o ninho no bardo coberto de isabelinhas e de orégãos. Tenho saudades dessa infância , em que o tempo se contava todo a partir desses meses maravilhosos, povoados de pássaros e de segredos. É que nessa infância de convívio com as papinhas, os tentilhões, as toutinegras e os melros pretos, a maior prova de confiança que se podia dar a um amigo era contar-lhe, em segredo, o sítio onde se escondia um ninho. Na infância os meses não tinham nome. Havia a época em que chovia muito e o vento abanava com violência os ramos das árvores e o terreiro ficava cheio de laranjas, às vezes ainda verdes. As melhores iam para o Menino Jesus da Lapinha, juntamente com o triguinho, as pêras melãs vermelhas e os pêros da festa. O tempo da chuva durava uma eternidade. A mãe sentava-se a bordar junto da janela, apoquentada com a falta de claridade. E nós pedíamo-lhe que contasse a história da bicha fera ou a do bertoldinho. Mas preferíamos as histórias verdadeiras da infância dele e dos nossos tios e tias, antes de eles partirem para a África, para o Brasil e para a Venezuela. Todos os dias perguntávamos quantos dias faltavam para podermos brincar ao sol e para as aves fazerem os ninhos. Insistíamos muito que queríamos saber onde é que elas passavam o Inverno e como é que conseguiam sobreviver com tanto frio e com tanta chuva e com os ninhos todos desfeitos. A mãe enfiava mais uma linha na agulha, ajeitava no regaço a toalha e ia dando respostas. Não me lembro que explicações arranjava para nos sossegar quanto ao destino dos melros, mas lembro-me bem dos primeiros dias de sol. Passávamos grande parte do dia - e os dias passavam a durar um instante – a espreitar as papinhas para lhes seguir o voo e descobrir o ninho. A mãe explicava, enquanto preparava o almoço ou aguardava que o tanque enchesse para lavar a roupa, que íamos ter muito que esperar. O mês de Março estava ainda agora a começar. Pelo Natal não me lembro de alguma vez termos esperado com tanta euforia. Nunca. Às vezes o Menino Jesus depositava-nos no sapatinho um brinquedo barato – igual mas de cores diferentes para evitar brigas – e nós ficávamos contentes. Mas nada que se parecesse com a magia da espera pelos segredos dos ninhos. Desde muito cedo a caça aos ninhos estabeleceu bem nas nossas vidas a fronteira entre os universos feminino e masculino. As raparigas procuravam nos bardos os ninhos bem feitos das papinhas, acompanhando com paciência a sua construção. Seguia-se a admiração pelos ovos matizados e, finalmente, a vigilância cautelosa daqueles seres acabados de nascer, sem penugem e de olhos fechados. Eram visitas diárias a todos eles, quantas vezes atravessando poios acabados de semear, para encurtar caminho. Que felicidade espreitar lá para dentro e ver três bocarras amarelas muito abertas, assim que imitávamos o canto da mãe. Quando começavam a ensaiar os primeiros voos, ficávamos contentes e tristes. Como uma mãe que gosta de ver o filho crescer mas tem saudades de o embalar ao colo. Os rapazes preferiam subir aos pinheiros, à descoberta dos ninhos dos melros pretos. Vigiavam-nos até os filhotes estarem gordos e quase a voar e, num belo dia, iam lá buscá-los e assavam-nos. Quando acontecia descobrirem os ninhos das papinhas era destruição pela certa, o que aumentava ainda mais a excitação da cumplicidade entre as raparigas. Por causa de um segredo atraiçoado havia zaragatas e era com o segredo de mais um ninho que se faziam as pazes e se trocavam favores. Passávamos a pente fino os bardos das redondezas e os sítios do ano anterior e íamos coleccionando ninhos como se fossem tesouros. Por vezes fazíamos figas: "Sei um ninho de papinha ao pé da casa da minha madrinha... Sei um ninho de tentilhão ao pé da casa de teu irmão..." O primeiro ninho que vimos foi atrás da casa da senhora Conceição. Era um grande ninho de melro preto, dentro de uma giesteira gigante. Chegámos a casa à tardinha a dizer que também queríamos um ninho só nosso. A mãe sossegou-nos, prometendo ajudar-nos no dia seguinte. Começámos a aborrecê-la de manha bem cedo. Ela foi-nos enxotando pela casa, enquanto dobrava roupa e limpava pó. Depois parece que demorou o dobro do tempo a pentear o longo cabelo e a prendê-lo num carrapito, tirando uma a uma as aguelhetas que deixara no parapeito da janela. Sacudiu a saia, encostou a porta e, finalmente, dirigiu-se ao bardo das isabelinhas. Afastou as flores aqui e ali e, como por magia, chamou-nos a ver um ninho com três passarinhos. Foi um dos dias mais felizes da nossa infância. Ou o mais feliz. A senhora Conceição tinha avisado: "Não se fala num ninho perto do lume porque as formigas matam os melros." Perguntámos à mãe se era verdade. Ela respondeu que não sabia mas sempre tinha ouvido dizer isso. Andámos com muito cuidado para não trair o segredo junto do lume mas um dia aconteceu falarmos dele na cozinha, enquanto cozia a ceia. No dia seguinte o nosso ninho era apenas um formigueiro com três pássaros mortos. Chorámos. Nos anos seguintes havia sempre um ninho no mesmo local. Até que, certo ano, descobrimos um outro, junto ao tronco enrugado de uma ameixieira brava. Também lá esteve durante anos e serviu de segredo cochichado ao ouvido das amigas mais chegadas. Um dia dei por mim a saber o nome dos meses e a preocupar-me com o tempo e lembrei-me que nesse ano não tinha sabido nenhum ninho. Foi há tanto tempo. Lília Mata In DN-JOVEM 24/09/1991 (1º Prémio de texto "ex aequo" Tema: livre)
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