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Uma história que, ao lado de muitas outras, enriqueceu o imaginário de Margarida, desde a sua infância, foi "A viúva e os seus três filhos". Abominava as personagens referentes aos dois filhos que mostraram não amar a mãe e guardou na memória a personagem do filho mais novo que sacrificou a vida deste mundo, seguindo o conselho da sua mãe. Ouviu essa história, várias vezes, contada pela sua madrinha, quando esta bordava as amostras para "O Sr. Silva" – era assim que se designava uma das casas que emitiam os bordados para serem distribuídos pelas agentes e confeccionados pelas bordadeiras. Naquela época, não havia consola, nem computador, nem televisão. Então, era a habilidade de contar histórias que entretinha e aquietava os mais pequenos, a fim de que as mães pudessem ter o sossego necessário à concentração e consequente coordenação de movimentos da linha e da agulha necessários à execução de um trabalho manual quase perfeito, digno de servir de amostra. Sentadas no chão sobre um tapete ou em banquinhos de madeira, as crianças ouviam as histórias e recebiam a lição de moral que cada uma lhes transmitia. Antes que seja tarde e que se apague da literatura oral, segue-se uma versão da história atrás referida, conservada através da memória de Margarida:
Era uma vez uma viúva que vivia pobremente com os seus três filhos. Um dia, o filho mais velho, vendo a vida precária que a sua família levava, pediu licença à mãe para o deixar ir trabalhar «por moço». A mãe, ao princípio não gostou da ideia, mas o filho argumentou que então ela era responsável pela miséria em que viviam. A mãe concordou e prontificou-se a lhe arranjar uns «bolinhos» que embrulhou numa toalha e colocou numa «cesta» para que ele comesse pelo caminho, visto que não sabia quanto tempo levaria a encontrar casa para trabalhar. O filho ficou muito satisfeito, despediu-se da família e pôs-se a caminho. Já tinha andado umas boas horas, quando encontrou uma senhora com um menino. O rapaz perguntou à «senhora», se conhecia alguém que precisasse de um moço. A senhora informou-o de que numa casa que ficava por trás de um monte, que dali se avistava ao longe, vivia um «senhor» que precisava de um «moço», por um ano e um dia. O rapaz agradeceu a informação e ia meter-se a caminho, quando a «senhora» lhe perguntou o que levava naquela cesta. O rapaz respondeu: - É bolo, minha senhora. Perguntou ainda a senhora: - E tu não dás um pedacinho a este menino? O rapaz retorquiu: - Quem me dera mais para eu comer! A «senhora» ficou triste e o rapaz seguiu caminho e não pensou mais no menino. Só que, reza a história, quando ele parou para merendar, comeu os bolos todos e ainda ficou com mais fome. Foi andando, andando até encontrar a casa com as referências dadas pela «senhora». Bateu à porta. Veio um «senhor» abri-la, a quem o rapaz perguntou se era naquela casa que precisavam de um moço. O homem respondeu que sim e, tal como a «senhora» havia dito, por um ano e um dia. O rapaz ficou muito satisfeito. O dono da casa explicou-lhe qual seria a sua tarefa a cumprir da seguinte forma: - Tens aqui um cavalo e uma carta para a levares ao Céu. O rapaz ficou admirado e disse que não sabia o caminho para chegar ao Céu. O «senhor» respondeu que bastava ele montar o cavalo, pois este iria lá ter, desde que ele não voltasse a cabeça para trás. Se ele voltasse a cabeça, o cavalo voltaria para casa. O rapaz seguiu viagem durante um certo tempo, deixando-se guiar pelo cavalo. A certa altura, viu que o cavalo se aproximava de um lugar com muitos insectos e serpentes venenosos. Teve medo, virou a cara e o cavalo, imediatamente, voltou para casa. Chegado à casa do «senhor», queixou-se de que tinha tido medo daqueles animais e, apenas virou a cara, o cavalo voltou para trás. O «senhor», com muita calma, disse: - Fizeste o que pudeste. Como pagamento, queres um saco de dinheiro ou a salvação e o céu? O rapaz respondeu: - Quero um saco de dinheiro, que a salvação e o Céu dá tempo. O «senhor» deu-lhe um saco de dinheiro e o rapaz, que ficou riquíssimo, comprou uma quinta muito bonita, toda vedada, arranjou uns poucos de cães para guardá-la e não quis saber da mãe. A mãe ficou admirada da falta de notícias do filho e procurou indagar-se se ele estaria vivo ou morto. Ficou a saber onde ele vivia. Então foi bater à quinta do filho e pedir-lhe auxílio para matar a sua fome e a dos outros dois filhos. O filho não a quis receber e, como ela insistisse para que ele se lembrasse do tinha prometido, não só não a quis ouvir como até soltou os cães para que a mordessem. Ela regressou a casa muito triste com a atitude do filho e resolveu continuar a viver pobre. Porém, o filho do meio, vendo a mãe tão miserável, propôs-lhe ir trabalhar para ajudá-la. Mas desta vez, a mãe disse que não consentia em tal proposta, porque poderia acontecer como ao irmão mais velho. O filho respondeu que com ele ia ser diferente, que não abandonaria a mãe. Contrariada, a mãe cedeu, pois via que estava a ser egoísta ao impedir que o filho conquistasse uma vida melhor. Preparou outra vez uma cesta com bolos para a jornada. O segundo filho encontrou a mesma «senhora»; recebeu a mesma informação do local de trabalho dada ao irmão; teve as mesmas atitudes, com uma diferença em relação à finalidade dada ao dinheiro: comprou uma quinta ainda maior e mais bonita e com cães ainda mais ferozes. Quando a mãe lhe foi pedir ajuda, ainda foi mais mordida pelos cães. A mãe regressou a casa ainda mais triste. O filho mais novo que a viu em semelhante estado, prometeu à mãe que iria trabalhar e disse que nunca seria capaz de a maltratar. A mãe respondeu que o segundo filho lhe dissera o mesmo e, no final, ainda foi pior do que o mais velho. O mais novo garantiu que da sua parte não seria assim. A mãe, embora não tivesse a certeza, também não se sentia bem, se obrigasse o filho a permanecer ao seu lado, sabendo que estavam a passar ainda mais miséria. Então deixou-o ir. Mas desta vez só lhe podia fazer um bolo, visto a farinha estar no fim. O filho mais novo despediu-se da mãe e pôs-se a caminho e encontrou «a senhora com um menino», como os irmãos encontraram. O rapaz perguntou à «senhora», se conhecia alguém que precisasse de um moço. A senhora informou-o de que numa casa que ficava por trás de um monte, que dali se avistava ao longe, vivia um «senhor» que precisava de um «moço», por um ano e um dia. O rapaz agradeceu a informação e ia meter-se a caminho, quando a «senhora» lhe perguntou o que levava naquela cesta. O rapaz respondeu: - É bolo, minha senhora. Perguntou ainda a senhora: - E tu não dás um pedacinho a este menino? O rapaz ia partir um pedacinho para dar ao menino, mas a «senhora» disse: - Obrigada, este menino não tem fome. Eu só queria testar a bondade do teu coração. O rapaz seguiu caminho e quando ele parou para merendar, quanto mais ele comia bolo, mais tinha para comer. Saciado, deixou um pedaço, para comer mais tarde, quando tivesse fome. Foi andando, andando até encontrar a casa com as referências dadas pela «senhora». Bateu à porta. Veio um «senhor» abri-la, a quem o rapaz perguntou se era naquela casa que precisavam de um moço. O homem respondeu que sim e, tal como a «senhora» havia dito, por um ano e um dia. O rapaz ficou muito satisfeito. O dono da casa explicou-lhe qual seria a sua tarefa a cumprir da seguinte forma: - Tens aqui um cavalo e uma carta para a levares ao Céu. O rapaz ficou admirado e disse que não sabia o caminho para chegar ao Céu. O «senhor» respondeu que bastava ele montar o cavalo, pois este iria lá ter, desde que ele não voltasse a cabeça para trás. Se ele voltasse a cabeça, o cavalo voltaria para casa. O rapaz seguiu viagem durante um certo tempo, deixando-se guiar pelo cavalo. A certa altura, viu que cavalo se aproximava de um lugar com muitos insectos e serpentes venenosos. Resistiu e não virou a cara e o cavalo passou a uma velocidade tal, que não houve animal que lhes tocasse. Mais adiante, estavam dois grandes pedregulhos a bater um no outro, no caminho por onde o cavalo iria passar, mas o rapaz, continuou de cara levantada e virada para a frente. Os pedregulhos pararam de bater e o cavalo passou. Em seguida encontraram uma casa, metade a arder e a outra metade intacta, mas o cavalo dirigia-se em direcção ao fogo, no entanto, o rapaz mantinha-se firme e a olhar em frente. Quando estavam mesmo a chegar perto do fogo, uniram-se duas grandes pedras e o cavalo passou. Depois encontraram uma ribeira cheia de leite, mas logo que se aproximaram, uniram-se duas pedras enormes e o cavalo passou para a outra margem. O seguinte obstáculo foi uma ribeira cheia de água, mas, novamente, uniram-se duas grandes pedras e o cavalou passou. Outra dificuldade a ultrapassar foi uma ribeira de sangue. No entanto, apenas o cavalo se aproximou da margem da ribeira, uniram-se novamente as duas pedras e o cavalo passou. Finalmente, chegaram à porta o Céu; o rapaz bateu à porta; veio S. Pedro a quem o rapaz entregou a carta. S. Pedro pediu-lhe que esperasse . Passada uma hora, S. Pedro chegou com a ordem que o rapaz podia regressar à casa do «senhor», porque já tinha a sua tarefa cumprida. O rapaz ficou admirado, já que o seu amou lhe havia dito que o serviço era por um ano e um dia e só tinha passado uma hora. S. Pedro respondeu-lhe que uma hora no Céu equivale a um ano e um dia na Terra. Então o rapaz voltou à casa do «senhor» que o convidou para entrar para a sala de visitas e fez-lhe um interrogatório acerca do que ele tinha encontrado pelo caminho. Conforme o rapaz ia enumerando os obstáculos que se lhe apresentavam, o «senhor» ia explicando a sua simbologia. Assim, quando o rapaz lhe disse que encontrou muitas víboras e insectos venenosos, o «senhor» explicou que aquilo simbolizava as almas que estavam no Purgatório a expiar os pecados; os dois pedregulhos que batiam um no outro, significavam os outros dois irmãos que andavam a brigar por causa da riqueza; a casa – metade a arder, significava o pai que, por ser muito mau, tinha ido para o Inferno e a outra metade por arder, significava a mãe que ainda estava viva; a ribeira de leite, simbolizava o leite com que Nossa Senhora amamentou o seu filho; a ribeira de água – as lágrimas que Nossa Senhora chorou, quando Jesus foi preso; a ribeira de sangue, o sangue que Jesus derramou, durante a sua paixão e morte. Por fim o «senhor» que queria arrumar contas com o rapaz, perguntou-lhe: - Como pagamento, queres um saco de dinheiro ou a salvação e o céu? O rapaz respondeu:
- Faça o favor de esperar que eu vou a casa perguntar à minha mãe. O rapaz foi a casa falar com a mãe. Esta acompanhou o filho até a casa do «senhor» e ambos escolheram a salvação e o Céu. Eles transformaram-se em duas pombinhas brancas e voaram para o Céu.
Registo escrito por Conceição Gouveia e Freitas em Setembro de 2002. Ouviu esta história, por volta de 1955/56, no sítio do Livramento, freguesia do Caniço, pela sua irmã Teresa do Espírito Santo Correia Gouveia e Freitas, nascida em 1938 e já falecida.
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