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PERFIL

LÍLIA MATA

liliamata@hotmail.com

 

    "Nasci há 33 anos no sítio onde ainda hoje moro: Sítio da Ribeira dos

 Pretetes, Caniço, Madeira. Só há poucos dias passei a viver numa rua com nome. Acabam de colocar tabuletas em todo o lado. Até agora vivia apenas no Sítio da Ribeira dos Pretetes mas as cartas chegavam sempre ao seu destino porque o carteiro conhece toda a gente e toda a gente se conhece.
Um dos meus textos publicados no DN Jovem falava sobre isto. Lembro-me que o coordenador do suplemento me escreveu um postal, agradecendo por tê-lo feito recordar os locais e os dias da sua infância. Fiquei contente. Para mim a escrita não é nada se não falar aos sentimentos.


    Gosto de escrever sobre as pequenas coisas do dia-a-dia, gestos, rituais, pensamentos, memórias, sensações. Sobre tudo aquilo que parece pequeno, sendo afinal grande. É assim o meu primeiro livro. Provavelmente o único.
Chama-se Histórias do Bertoldinho e ganhou em 1997 o Prémio Edmundo Bettencourt, prémio literário Cidade do Funchal. São memórias da minha infância, tal como as fui lembrando durante as duas semanas em que o escrevi. Os contos da minha mãe, a partida do meu pai, outras partidas e chegadas dos inúmeros tios e primos emigrados, as brincadeiras com as minhas irmãs, ninhos, colecções de folhas, a forma de sentir as festas e as romarias.


    O livro foi publicado pela Câmara Municipal do Funchal, assim ditava o regulamento do concurso, e encontra-se à venda apenas no departamento cultural da autarquia, não chegou a nenhuma livraria. Disseram-me que para entrar no circuito de comercialização teria de ser editado por uma editora. Tentei duas ou três do continente, para descargo de consciência. Responderam-me o mesmo que já terão respondido a muitos outros desconhecidos que também gostavam de ser escritores. Por isso digo que este talvez seja o único livro da minha vida. Mas um sonho cumprido, sem dúvida. O segundo acontecimento mais importante da minha vida, o primeiro foi a minha filha.


    Acabo de lembrar-me do título de uma entrevista que me fizeram um dia no DN Jovem, brincando com o meu nome com a ilha e com a sua influência sobre as pessoas. Era "L'ilha mata". Os escritores madeirenses para o serem tiveram de partir, cortar laços, libertar-se, o sonho fica sempre para lá do horizonte quando vivemos rodeados de mar por todos os lados e tudo vai ficando cada vez mais pequeno, à medida que se vão construindo túneis e vias rápidas.


    Comecei a escrever aos quinze anos, primeiro um diário com os desgostos do meu primeiro amor e a seguir poemas, muitos poemas típicos daquela fase da vida, adolescência e juventude. Depois do ensino secundário estudei técnicas de turismo e precisamente no dia em que acabei o curso, que coincidiu com o dia em que fiz vinte anos, comecei a trabalhar como jornalista na redacção do Diário de Notícias do Funchal. O convite surgiu na sequência de um prémio literário da Câmara do Funchal (o José Tolentino Mendonça ganhou o primeiro prémio, eu o segundo) e de alguns textos que enviei para o director do jornal, juntamente com uma carta onde lhe falava do sonho da escrita.


    Entretanto ganhei alguns concursos literários promovidos pela Secretaria Regional da Educação, comecei a colaborar no DN Jovem, e mudei para a redacção da RDP-Madeira, onde continuo a exercer a minha actividade. Nesse mesmo ano (1989) inscrevi-me no Centro de Apoio da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde fiz o curso de Línguas e Literaturas Modernas - Inglês e Alemão, incluindo o estágio pedagógico numa escola secundária. Tenho duas profissões de que gosto muito: jornalista e professora.


    Colaborei com vários trabalhos de investigação na área da etnografia na revista de temas culturais Islenha, da Direcção Regional dos Assuntos Culturais. Também já colaborei na revista Margem, da Câmara Municipal do Funchal, e desde Outubro do ano passado escrevo para a secção de cultura do semanário Tribuna da Madeira. Já leccionei alemão nalgumas escolas profissionais, este ano ensinei inglês a uma turma do Ensino Recorrente na Escola Secundária Jaime Moniz.


    Acabam de desafiar-me para integrar o departamento cultural do clube recreativo da minha freguesia, o Cruzado Canicense. Aceitei porque quero ajudar na preservação das tradições da minha terra.


    Não estou a escrever nada em especial neste momento. Por vezes registo alguns apontamentos soltos de coisas que vou vendo e sentindo. O meu verdadeiro projecto é a minha filha. Quero que ela seja capaz de ver para além do que está à vista e que consiga ler a poesia da vida, perceber a grandeza do pequeno e a fragilidade do grande. E gostava que fosse aqui. Com o mar aos pés e estes verdes todos, o cheiro dos pinheiros, poios e ninhos."

Lília Mata

 In: DN Jovem

P.S. - Lília Mata ganhou o prémio literário -  Horácio Bento de Gouveia - 2001 da Câmara Municipal de São Vicente, modalidade conto.

 

 
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