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Freguesia do Caniço Segundo o Tenente Coronel Sarmento

 

"    Provém, o nome do lugar, da abundância de gramíneas de altos colmos, porém delgados com " huns grellos muito compridos" de que se revestiam as rochas do litoral e ao cimo uma pradaria silenciosa, onde nenhum quadrúpede se movia.

" Donde hum lugar depois neste carriço 

per corrupção se chamara canisso"

M.el Thomas - «Insulana» L. 5.º Est. 88

Phragmites Communis (Carriço ou Caniço)

    Estavam as capitanias do Funchal e Machico por uma linha divisória demarcada na Ponta da Oliveira, e logo povoados de certa importância se estabeleceram, sendo uma das mais antigas capelanias elevada a paróquia no meado do século XV.

    Tinha já duas igrejas, Santo António e Espírito Santo, separadas pela Ribeira do Caniço, correspondendo a dois centros que se estimulavam – Caniço de Machico e Caniço do Funchal – cada um com seu porto de mar, na enseada dos Reis Magos e do Portinho.

    Em 1500 por alvará de 01 de Fevereiro, é colado na freguesia do Caniço, o Padre Vasco Afonso, vigário do Porto Santo, cerimónia que se realizou em Portugal, imposta pelo bispo D. Diogo Pinheiro que não quis vir à sua diocese, mas que, tomando seu barrete e pondo-o sobre a cabeça do Padre Afonso, o confirmou nas " capellanyas...sant antom do canisso da parte de Machyquo. E de santi spri da parte do funchall...com...s. vinho vestimentas calizes pedra toalha...e pertodollos hornamentos..."

    O vigário do Caniço distribuía o serviço religioso pelas duas igrejas par contentar o povo, até que, arruinando-se mais depressa a do Espírito Santo, predominou a de Santo Antão, havendo nela os cargos de tesoureiro e organista.

    Uma carta de D. Sebastião, de 12 de Março de 1574, concede a mercê anual de 8$00 réis à freguesia do Caniço, sendo metade par cada igreja.

    Com a extinção das capitanias e a criação dum cura coadjunto na freguesia, esfriaram as rivalidades de preponderância, até que, surgindo a necessidade de ser edificada uma igreja mais ampla, levantaram-se de novo desinteligências sobre o local e margem preferida da ribeira. Cresceram os "desprazimentos" que o vigário de então soube desfazer, oferecendo o terreno par a edificação do templo, que veio a concluir-se, depois de quatro anos de trabalhos, em 1874. Uma inscrição latina sobre a porta principal relata que o erário régio mandou edificar esta igreja do Espírito santo e Santo Antão, no reinado de D. Maria I.

    A elevação da torre e montagem dum relógio são obras do ano de 1931.

    Grande número de fazendas de importância houve o Caniço, sobressaindo a de Álvaro de Ornelas, da casa do Infante D. Henrique e navegador, que teve em 1465 sesmaria desde a Ponta do garajau até a Ribeira. Seu filho, Álvaro de Ornelas Savedra, instituíu com sua segunda mulher Branca Fernandes de Abreu, o grande morgado chamado Caniço, por testamento de mão-comum, em 1495.

    Desta família, Aires de Ornelas e Vasconcelos fundou em 1591 a Capela de Nossa Senhora da Conceição, na herdade da Quinta, par onde foi desterrado o morgado Agostinho António de Ornelas, no tempo do marquês de Pombal, e ali falecido em 1774.

    João de Ornelas e Vasconcelos, segundo filho de Álvaro de Ornelas Savedra, por seus muitos serviços " teve o habito de Cristo com a comenda das Missas da capitania de Machico e Porto Santo. Vivia em 1537 sua mulher Cecília de Moura, filha de D. João de Moura, caçador-mor de D. Manuel, na sua Quinta da Salvação no lugar do Caniço.

    A capela de Nossa Senhora da Salvação foi edificada, em 1614, por Francisco Morais de Aguiar.

    Entre os primeiros povoadores do Caniço, encontramos também os apelidos: Viana (1500), Salvagos ( 1520 ), Mialheiro ( 1526 ), etc.

    A ermida da Madre de Deus, no sítio deste nome, é uma elegante capelinha do século XVI, instituída pela família Salvago.

    Nossa Senhora do Livramento, mandada edificar por Sebastião de Oliveira, em 1660, era de grande devoção e objecto duma concorrida romagem.

    Num antigo manuscrito se fala das capelas de Nossa Senhora da Esperança e Nossa Senhora do Caminho, nesta freguesia, porém de todas só restam as de – Nossa Senhora da Consolação e – Madre de Deus.

    Teve o Caniço tabelião privativo, cargo que já existia em 1488, e uma das primeiras azenhas moeu na margem da Ribeira.

    No termo das duas capitanias se resolviam as questões mais importantes de interesse par a Madeira, antes da criação da cidade, enviando ali as duas câmaras seus delegados par assentarem em conjunto, na resolução a tomar.

    Uma ponta se chama garajau, nome da ave marinha "Sterna hirundo, na qual ao longo do mar estão dragoeiros que a fazem mais fermosa". Resta um, por amostra, dessa vegetação e mais havia "humas arvores altas chamadas barbuzanos" à beira do caminho, com boa sombra par repousar.

Sterna Hirundo (Garajau)

    Diz a lenda que por este sitio apareceu de noite o diabo, em forma de caminheiro, a um clérigo, que tinha fama de possante, cometendo-o a experimentar forças e o foi levando ladeira abaixo sobre alta rocha par que lutassem. Pressentindo o logro, se benzeu o padre e ali se deitou o demo pela penedia com grande ruído, arrastando consigo uma quebrada.

    Sobre a Ponta do Garajau ostenta-se uma estátua do Coração de Jesus, inaugurada a 30 de Outubro de 1927, na festa de Cristo-Rei, em cumprimento dum voto do Conselheiro Aires de Ornelas, filho do último morgado do Caniço.

    Teve a freguesia vários redutos e dois fortes. Por ali avançaram sobre o Funchal as forças miguelistas em 1828, tendo explodido no forte do Porto Novo o depósito das munições, causando a morte a dois artilheiros e ferido outros soldados.

    Vitimas também ali produziram as efervescências políticas, especialmente em 1887, quando se pretendeu estabelecer na Madeira as juntas de paróquia.

    Pelo meio fácil de comunicação actual, o Caniço tornou-se uma estância de verão, aformoseando-se. Antigamente, quase todo o comércio se sevia do cais da Ponta da Oliveira, construído em 1909, que o povo chamou – das cebolas – por onde se fazia a grande exportação deste produto local."

In: Freguesias da Madeira, Tenente Coronel Sarmento

Pesquisa:

Webmaster Rui Gonçalves

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