|
|
|
Despique
Rapaz: Tendes os pezinhos brancos Branquinhos e cor-de-rosa Porque não usas tamancos Cobrindo a carne mimosa?
Rapariga: No campo não se repara Fui assim habituada Como posso andar calçada custando a vida tão cara?
Rapaz: Se tu quisesses, Maria Receber-me por namoro Podias calçar um dia Sapatos com pregos de ouro
Rapariga: Aceito para estrear Vá que seja, vá que seja Quando nos formos casar Pela Santa Madre Igreja
Rapaz: Casar, Maria, isso não Quem te fala em casamento Pode haver muita afeição Mas não haver sacramento
Rapariga: Não sou dessa qualidade Eu ando de pé descalço Não darei um passo em falso Como as fofas da cidade
Rapaz: Meu Deus que cara tão feia Eu não queria dizer isso As raparigas da aldeia Parecem mesmo uns ouriços
Rapariga: A gente vive nos campos Só namora quem se estima Adeus e adeus sapatos Assenhora a sua prima
Este despique foi recolhido no Sítio da Ribeira dos Pretetes, na zona conhecida por Pomar, a 26-02-1986. A informadora, Justina Magna de Ornelas Fernandes, tinha então 46 anos. Explicou tratar-se de um despique trazido para o Sítio por uma mulher que trabalhara no Hospício, onde aprendeu muitas canções com as freiras. O despique foi ensaiado de propósito para ser cantado na Festa do Livramento de 1947, por duas das muitas crianças que nesse ano participaram na romagem das Eiras, uma vestida de vilão e outra de viloa. As pessoas aprenderam o despique com facilidade e passaram a cantá-lo nas mais diversas situações, incluindo as romagens dos anos seguintes, durante o longo percurso até à Igreja ou dentro do bazar, como forma de atrair compradores para as rifas.
Lília Mata
|
| ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
|
|