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Portas sem número

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    - E qual é a rua?

    - Não tem.

    - E o número da porta?

    - Também não tem.

    - Então como é que a carta vai lá bater?

    - Ora, o carteiro conhece-me muito bem. Ele conhece toda a gente do Sítio.

    - Então fica só assim: Sítio da Ribeira dos Pretetes – Caniço? Só?

    - Pois é. Obrigada. Adeus.

    Claro que a carta veio cá bater. Acabo de recebê-la. Não foi a primeira vez que me perguntaram pela minha rua e que se admiraram porque a minha porta não tem número. Mas é verdade e eu não me importo.

    Também já me perguntaram se a casa tem campainha e se tem caixa de correio. Para as duas perguntas a resposta é não.

    Também não tenho vizinhos da porta ao lado nem do andar de cima ou do rés-do-chão e nenhuma mulher do prédio em frente espreita à janela quando chego a casa.

    Quando me fazem perguntas deste género eu sorrio e explico amavelmente pormenores da minha rua que não existe. Falo das montanhas e das veredas e ainda de um retalho de mar entre os pinheiros. Por vezes também me refiro à água correndo levada abaixo e aos bardos cobertos de isabelinhas no Verão e de açucenas no Outono.

    Também poderia mencionar os poios cultivados a golpes de enxada, com regos bem feitos para as semilhas e canteiros para os nabos. E a ribeira sob a sombra dos plátanos e os quintais ornamentados com cântaros de begónias, sapatinhos ou orquídeas.

    Claro que não lhes conto sobre outras coisas maravilhosas, como o branco das ameixieiras em flor, as cantigas dos melros e os silvados carregados de amoras, no mês de Setembro.

    Conheço as casas todas destas redondezas e sei o nome das pessoas, uma a uma, que habitam sob esses telhados encarnados. Cruzamo-nos todos na vereda que serpenteia pelas encostas e damos os bons-dias e falamos do tempo e da saúde e da doença e a seguir dizemos até amanhã, se Deus quiser.

    É o caminho para a missa, para a venda e para o autocarro. É o caminho para tudo, utilizado por todos os moradores desta parte do Sítio da Ribeira dos Pretetes, popularmente conhecida por Pomar ou Achada do Capitão.

    Com o nome, costumam as pessoas, igualmente, ficar muito espantadas. Então, eu soletro R-i-b-e-i-r-a dos P-r-e-t-e-t-e-s e já cheguei a explicar a sua provável origem. Eu não sei, mas uma senhora idosa, já falecida, costumava contar que todas as terras da parte alta da freguesia do Caniço pertenciam a um capitão há muitos, muitos anos, que encarregou um preto de guardar a sua propriedade. Dizia ela que Ribeira do Preto acabou por dar origem a Ribeira dos Pretetes.

    Existem casas aqui e além, ao longo do caminho que atravessa o Sítio, mas nenhuma tem número, nem portão, nem caixa de correio. É apenas a casa da senhora Maria ou do senhor José, normalmente mais conhecidos pelas respectivas alcunhas, e não a porta número vinte ou número trinta e três.

    Em todos esses lares acontecem diariamente pequenas e grandes alegrias e desenrolam-se, igualmente, pequenos e grandes dramas. Tal como nas casas que têm número na porta e ficam situadas numa rua com nome.

    Quando há correspondência, o carteiro lê o endereço, fixa depois o nome do destinatário e diz para si mesmo: esta é da senhora Isabel de lá de dentro, esta da senhora Helena de ali de cima, e esta do senhor Joaquim, que mora acolá além.

    A seguir ao almoço, eram umas três horas, ouvi um toque de corneta no cabeço. Fui até à beira do caminho e esperei que o carteiro passasse com a minha carta. Sítio da Ribeira dos Pretetes – Caniço. Ora, então, muito boa tarde. Que tal vai a vida? Está é muito calor para esta corrida. Pois é, e ainda falta muito? Hoje até que não. São só mais duas encomendas para o último sitio, agora é um instante. Deus lhe dê boa viagem. Até amanhã, se Deus quiser.

 

 

Lília Mata

In DN-JOVEM 31/03/1992

(Primeiro prémio de texto

Tema: "A minha rua")

 

Nota: Hoje as ruas do meu Sítio Já têm nome e cada porta tem o seu número. O carteiro há muito que já não percorre as veredas a pé. Durante anos veio de carro e há pouco tempo, começou a passar de motorizada. É de certeza mais cómodo. Mas isso não me impede de ter saudades dos tempos em que se ouvia ao longe a sua corneta e se ficava à espera no canto do terreiro, com o coração apertado de emoção. Traria uma carta para nós? Agora as cartas ficam na caixa de correio e raramente se trocam os bons dias e os cumprimentos da praxe. Que pena!

 

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