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Memórias da Procissão de São Martinho

 

Celebração pagã de homenagem ao "padroeiro dos bêbados"

nascida no Pinheirinho há cerca de 50 anos

 

    O encontro fora combinado à tardinha, ali no largo do Pinheirinho. Alguém disse: "Vai-se tocar um bocadinho p’rá venda?" E o acordo fez-se quase em silêncio, com alguns acenos de cabeça: "Então não, vamos lá que uma pessoa também precisa de se entreter."

    Foram. Romano Vieira acompanhado do machete, outro de uma guitarra, mais alguém com um bandolim e ainda uma viola de arame e uma braguinha. E todos cheios da alegria grande desses ajuntamentos na venda do Bilho. Já estudando pelo caminho as cantigas. Exigência quer do brinco quer do xaramba.

    Muitos dos tocadores do Grupo do Pinheirinho também eram bons a arrematar cantigas mas era difícil chegar aos calcanhares do Romano, mais conhecido por Cafana.

Grupo de Música do Pinheirinho.

Em cima, da esquerda para a direita: José Quintal (conhecido por José do Freitas), Américo Quintal, José de Freitas(conhecido como Tapisse) e João Vieira, a que chamavam o "Marcado".

Em baixo, da esquerda para a direita: Romano Vieira (conhecido como Cafana), José de Sousa (conhecido pela alcunha de "Bilho"), José Jardim (Profeta) e José Quintal (Pai, igualmente conhecido por José do Freitas)

À frente: Humberto Sousa, filho de José de Sousa (Bilho)

    Ia rijo o brinco, nessa noite de 10 para 11 de Novembro. A alegria que tinham levado de casa, guardada na alma, apenas a espreitar nos olhos e no esboço de um sorriso, tinha já saído toda cá para fora.

    "A gente mandava vir um copinho de vinho, aquilo era barato nesse tempo, a gente era quatro ou cinco a tocar, cada um pagava uma bebidinha, cantava-se uns fadinhos, cantava-se umas coisas...." Romano Vieira fala com a voz da saudade quando lhe pedimos que recorde esses velhos tempos.

    Perdera-se a conta aos copos nessa noite de Novembro. Um deles pegou na vassoura e foi saindo para a rua, seguido pelos outros, o vendeiro também. Estava na hora e prestar homenagem ao dono da noite. São Martinho, padroeiro dos bêbados, estava simbolizado na vassoura e preparavam-se para venerá-lo com um pequeno cortejo, cada um lançando uma cantiga em sua honra.

       No ano anterior tinha sido assim e como se tinham divertido a provar o vinho novo em casa de um e de outro, lançando vivas ao santo de vez em quando, um deles encarregando-se de levantar no ar a vassoura levada da venda.

    Pois nesse ano alguém teve uma ideia ainda melhor. "Foi um rapaz acolá além, o Freitas, e eu e outros que dissemos: ‘Vai-se fazer um boneco, que é o melhor para se representar o São Martinho’." Dito e feito. Assim nasceu um costume que se manteve por longos anos. No ano seguinte a procissão do São Martinho atraiu já muita gente ao Pinheirinho e à Camacha e aos outros lugares por onde passou.

    Aquela noite, a de São Martinho, passou a ser a mais movimentada e a mais divertida do ano no Sítio do Pinheirinho (Ribeira dos Pretetes), nas serras do Caniço.

Largo do Pinheirinho tal como se encontra actualmente.

    "Ia-se afinando os instrumentos, dava-se um retoque naquilo enquanto o boneco não ‘tava pronto...Era um instante para fazer o boneco, pois aquilo tem alguma política? Umas calças e uma camisa dum home e atafulhar aquilo, encher aquilo de mato, pôr uma correia, uma gravata e assim uma bomba à ilharga, assim com duas voltas, que era p’ra dizer que São Martinho era bêbado..."

    A mangueira que o boneco levava à bandoleira estava ligada a uma vasilha com vinho. A noite era longa, os percursos também e muitos os homens e as paragens da procissão para bailarem um bocado e matarem a sede.

    Vinho era coisa que não podia faltar na procissão do São Martinho: "Fazia-se umas cobranças entre o nosso povo, entre a gente que tocava, às vezes cada um dava dois mil e quinhentos, nesse tempo era um dinheirão, aquilo enchia-se uns garrafões de vinho e lá levava-se os garrafões com a gente. Parava-se aqui a bailar um bocado de roda do santo e a beber uns copos como na festa, era mesmo uma festa!"

    Ilumina-se o rosto do senhor Romano Vieira com estas recordações. Gesticula, solta uma gargalhada de vez em quando, mas sempre com a serenidade que o correr dos anos, muitos, confere às pessoas.

    O boneco representando o São Martinho era colocado sobre uma espécie de andor com quatro paus salientes, dois de cada lado, para ser levado às costas de quatro homens. Todo enfeitado com flores como os andores verdadeiros nas festas religiosas. Atrás do santo seguiam os tocadores. Formavam um grupo com sete ou oito instrumentos, com boas vozes também, um regalo para quem gostava de ouvir boa música.

Outra foto do grupo, tirada no Pinheirinho.

 

    Essa brincadeira de homens e rapazes cedo ganhou fama e começou a atrair muita gente ao Pinheirinho. O largo enchia-se de povo para assistir à partida do cortejo e às primeiras cantigas em honra do São Martinho.

    "Ia-se daqui p’ra cima a pé, chegava-se lá acima, quando se passava o cemitério, parava-se naquele larguinho do cemitério onde tem aqueles caminhos, bailava-se um pedaço, bebia-se uns copos, deitava-se uns foguetinhos, ia-se outra vês, mais uma poisada p’ra diante, sempre assim inté chegar à Camacha. Aquilo ia-se ajuntando povo, ia-se ajuntando, mas que festa a gente fazia!" Romano Vieira garante que chegavam a participar na procissão mais de duzentos pessoas.

    Na Camacha também se esperava por aquele dia com grande expectativa. "Eles já esperave pela gente e até vinham alcançar a gente com luzes, um petromax, que não havia luzes, nem uma... Aquilo era uma chama de luz ardendo pelo caminho p’ra lá, uns adiante outros atrás..."

    No Largo da Achada acontecia um dos momentos mais importantes da noite: o sermão de São Martinho. O Ti Caires falava à multidão de cima de um estrado, constituído por algumas tábuas colocadas sobre uns bidões. O Ti Caires tinha jeito para dizer graças e também era conhecido pelos seus dotes de oratória. Por isso, ano após ano, era sempre a ele que cabia essa missão.

    "Fazia um sermão, que São Martinho que fazia milagres e que de um cacho de uvas fazia uma pipa de vinho e não sei que mais, e isto e aquilo, p’ra encher, não é? Depois no resto arranjava um aranzel para dizer que eles comiam um bago, o outro comia um bago e mais isto e mais aquilo, e depois eles perguntavam, E o outro? Ele ia lá dizia, P’ra tua irmã. Aquilo era tudo uma graça, ele fazia um paleio com aquilo estuporado..."

    Terminado o sermão soltavam-se mais foguetes e novamente o garrafão de vinho circulava de mão em mão. A festa ainda estava para durar.

    Na procissão do São Martinho só eram admitidos os homens, casados ou solteiros, isso não interessava. As mulheres assistiam aos brincos no Largo do Pinheirinho, à partida do cortejo. Depois seguiam para casa, para uma noite inteirinha sem os seus homens. O mais certo era terem de aturar uma bebedeira no dia seguinte.

    "Zaragatas nunca se teve com isso, agora bebedeiras sim, bebedeiras cá dava-se pois a gente aguentava-se uma noite inteirinha nisto, vinha-se de dia."

Os homens do Pinheirinho reunidos no largo, junto às mercearias.

    E a história do São Martinho? Romano Vieira lembra-se de a ouvir contar aos antigos, a lenda do São Martinho e dos seus outros irmãos santos. "São Gonçalo, São Pedro, Santo Amaro, eram os quatro santos. Eles tomave a bebedeira e à medida que iam andando ficavam lá e é onde tem as freguesias deles. São Martinho foi o que andou mais para o lado do oeste. Eles vinham d’acolá daquele lado, eu sempre ouvi falar nisso. Que os santos eram irmãos e vinham andando para o seu destino mas bebiam muito e ficavam pelo caminho. Onde eles caiam c’a bebedeira ficave lá. São Martinho foi o mais resistente, ele andou até São Martinho, andou bastante."

    Quantas saudades! O senhor Romano era capaz de ficar o dia todo a falar desses tempos. Não só da procissão do São Martinho. Também das borgas da festa, dos despiques, dos brincos.

Luís Correia, José de Sousa Bilho e Romano Vieira (da esquerda para a direita), reunidos na venda do Bilho, onde um dia terá surgido a ideia da procissão em honra do São Martinho.

 

    A procissão do São Martinho já não se faz. Agora só existe na recordação das gentes do Pinheirinho, das mais antigas. "Isto ainda durou mais de quinze anos, talvez. Depois foi acabando aos poucos. Os tocadores também vão se acabando, vão deixando de tocar, uns vão caminhando, outros não se importam, e logo que a música acaba, e logo que a música acaba aquilo acaba. Não tem graça sem música nada, não é verdade?"

Lília Mata

 

Nota:

    Este texto resultou de uma entrevista que há alguns anos fiz ao senhor Romano Vieira, mais conhecido pela alcunha de Cafana. Falei com ele em sua casa, no Pinheirinho, na parte alta do sítio da Ribeira dos Pretetes, Caniço.

    Tempos depois de me ter contado estas memórias Romano Vieira adoeceu e acabou por falecer. Já não está entre nós mas ficam aqui, vivas, as memórias de um tradição que ajudou a construir.

    Um obrigado à sua esposa, Aurora, que amavelmente cedeu as fotografias antigas aqui apresentadas.

 

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