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SANTO ANTÃO, O PADROEIRO DO CANIÇO

 

 

 

    Domingo, no final da «missa das oito», o Senhor Padre Rogério «fez as publicações» e avisou que a festa do nosso padroeiro, Santo Antão, será no próximo fim de semana. A minha sobrinha puxou o meu casaco e segredou: «quem é Santo Antão?». Limitei-me a mostrar a imagem que estava no lado direito da igreja. Ela olhou-a, olhou-a e exclamou: «tem uma vaca e um porquinho!».

    Uma senhora (que estava no banco da frente) ouviu e, enquanto ajeitava o seu véu preto de renda, explicou «é o padroeiro dos animais. Naquele tempo, diziam ser castigo quando morria um animal a quem não aceitava ser festeiro »...

    Estas palavras tão curiosas e maravilhosas levaram-me a investigar a vida deste Santo tão «poderoso». Descobri, numa estante da recente biblioteca da nossa freguesia, um livro organizado por José Leite, intitulado Santos de Cada Dia. Abri-o e nas páginas 77-78 li atentamente:

 

17 de Janeiro: Santo Antão, Abade (+ 356)

    Santo Antão, cognominado o Grande, patriarca dos cenobitas, filho de pais piedosos e ricos, nasceu em 251, em Comã, no Egipto, e revelou desde a infância grande desejo da perfeição religiosa. A palavra da Igreja, a observação da natureza, a pureza dos costumes e a fuga do mundo serviram-lhe de guias. Motivos ascéticos fizeram que deixasse de dedicar-se aos estudos clássicos. Com 20 anos perdeu os pais. Assistindo uma vez à santa Missa, ouviu as palavras do Evangelho: «Se queres ser perfeito, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e segue-me». (Mat 19, 21). Antão observou este conselho e começou vida de asceta, retirou-se para o deserto, onde se ocupou com oração e trabalho. O demónio não o poupou, não lhe deixando faltar incómodos espirituais e corporais. Antão, porém, recorreu às armas da oração e penitência, e saiu vencedor. Depois, mudou a habitação mais para o interior do deserto, estabelecendo-se numa gruta abandonada. Um dia foi visitado por desconhecidos e amigos, que muito se admiraram da sua boa disposição e do poder com que sarava os doentes.

A fama da sua santidade atraiu muitas pessoas, que se lhe confiaram para a direcção. Dentro de poucos anos, existiam já numerosos cenobitas na Tebaida. Todos eles reconheceram Antão como superior. Quando, em 311, Maximino decretou uma perseguição à Igreja, Antão não se expôs ao martírio, mas saiu da solidão para animar e confortar os irmãos em Cristo. Terminada a perseguição (312), retirou-se para o monte de Colzim (Morro de Santo Antão), onde continuou a vida de eremita. Em visões proféticas, Deus mostrou-lhe o futuro da Igreja, p. ex., a vinda do Arianismo e a sua acção perniciosa.

    Tanta era a estima de que na Igreja gozava, que o imperador Constantino, e os dois filhos Constâncio e Constante, lhe dirigiram cartas, em que lhe pediram orações.

    Tendo já noventa anos, por inspiração do Espírito Santo, foi procurar S. Paulo eremita, que vivia no deserto havia já noventa anos, desconhecido completamente. Antão encontrou-o ainda vivo, mas já em vésperas de deixar este mundo. Deu-lhe sepultura e levou consigo a túnica feita de folhas de palmeira, que vestia só em ocasião de grandes festas.

    Sentindo a morte aproximar-se, chamou os discípulos e dirigiu-lhes os últimos conselhos: «Deus chama por mim, meus filhos, e tenho desejo de entrar no céu. Lembrai-vos sempre dos meus ensinamentos. Evitai o veneno do pecado respeitai a vossa fé. Sede conscienciosos em observar a lei de Deus; vivei como se tivésseis de morrer todos os dias, e guardai a vossa alma isenta de todos os maus pensamentos.» Depois, pediu que lhe sepultassem o corpo sem grande aparato, e não revelassem a ninguém o lugar onde jazia.

    Antão morreu aos 17 de Janeiro de 356, na idade de 105 anos, sem, contudo, ter dado sinal algum de caducidade.

    O corpo, descoberto em 561, foi transportado para Alexandria, e em 635 para Constantinopla. Hoje repousa na igreja de S. Julião, em Arles. A arte cristã apresenta Santo Antão com um porco, o qual significa o demónio, cujas tentações o santo venceu com tanto heroísmo durante 90 anos.

    Santo Atanásio, na biografia que escreveu de Santo Antão, destaca oito ensinamentos que o grande patriarca da Tebaida deu aos discípulos. São os seguintes:

  1. Nada pode haver mais útil para o cristão, do que pensar todos os dias: Hoje estou a começar a servir a Deus, e o dia de hoje pode ser o meu último.

  2. Vida pura e fé viva na presença de Deus são os meios mais eficazes para evitar o pecado.

  3. Quem quer vencer as tentações não confie em si, mas em Deus.

  4. O melhor remédio contra a tibieza é a lembrança de que a vida é curta e incerto o fim dela.

  5. O inimigo infernal é muito fraco para quem sabe desarmá-lo treme diante do jejum, da oração, da humildade e outras boas obras. Só o sinal da cruz tem força bastante para confundir-se as artimanhas e ilusões.

  6. Não convém esquadrinhar as coisas futuras, mas muito convém confiar em Deus.

  7. A luz do espírito é muito superior à luz material.

  8. Um olhar impuro basta para abrir as portas do inferno.

  9. Um monge é como o peixe. Este morre, saindo da água; aquele quando abandona a solidão.

 

 

Valentina Gonçalves de Freitas

(15-01- 2002, Dia de Santo Amaro)

 

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