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O povo diz que "o sol baila na manhã de São João". Antigamente, as raparigas solteiras atiravam papelinhos à fogueira, queimavam cardos, punham cravos depois do travesseiro...Queriam saber com quem haviam de casar. Muitos viam-se na água à meia noite para se certificarem de que viveriam mais um ano. Outros colhiam orvalho para curar doenças. Saltar à fogueira também é costume que se vai perdendo. Duas mulheres do Caniço falam-nos destas e de outras tradições dos Santos Populares.
Maria José ficava aborrecida porque se abria sempre o papelinho que continha o nome do Santo. Não sabia ler. Era a Rosairinha do Ti João Duarte quem, na véspera de Santo António ou de São João, lhe escrevia os três nomes nos papelinhos. Maria José levantava-se antes do nascer do sol. Sabia o resultado da sorte porque havia feito uma marcação diferente em cada papel. Até que começaram a dizer que havia de casar com um tal Cláudio. Experimentou escrever o nome dele e pronto. Assim quis o santo e o certo é que "comecei a andar para casar no ano para a frente". Sentamo-nos num canto da cozinha. O pão acaba de sair do forno e está abafado em cima da mesa. Maria José do Ti Valentim – é assim que todos a conhecem – tem 67 anos. Não hesita em evocar memórias do passado: "Era uma alegria chegar a este mês. As raparigas juntavam-se todas num bando e faziam as sortes à beira das fogueiras." O objectivo principal era saber quem havia de ser o futuro marido. Santo António é o santo casamenteiro mas São João tem talvez maior tradição. Atribui-lhe o povo fama de namoradeiro. Pelo São Pedro, o último dos Santos a ser festejados, repetem-se as sortes. "Fazia-se três bolos de lama com um grão de trigo. Depois ficava um atrás da porta, um atrás da casa e um debaixo da cama. Se refilasse o trigo no bolo que ficava atrás da porta era uma alegria porque queria dizer que o noivo estava quase chegando. O pior era se fosse atrás da casa porque ainda estava longe." Confessa que no seu caso "foi certo" e diz que certa rapariga chorava o dia inteiro quando a sorte lhe dizia que o noivo haveria de tardar. Ajeita o cabelo branco, meneia a cabeça e continua recordando a azáfama que se vivia em todas as casas do sítio na véspera dos santos populares. As raparigas procuravam "ter as voltas feitas à hora das ave-marias". É quando se acendem as fogueiras pelos cabeços e se ouve ao longe o som dos búzios e o alarido das gentes. "No meu tempo toda a gente fazia um facho. Agora as pessoas já não se importam porque têm outras coisas" , diz-nos Conceição Nóbrega, também de 67 anos. Não interrompe os movimentos ritmados que caracterizam a apanha da erva. A foice move-se com destreza por entre os arbustos e ela acrescenta: "Quem é que não fazia sortes quando eu era nova? Naquele tempo os namoros eram todos desviados. Agora é que andam bem agarradinhos e como elas já sabem, não precisam de fazer as sortes..." Primeiro diz que não tem muita pachorra – "quando se é novo é que se faz tudo com gosto" – mas depois acede a recordar tempos que já lá vão. Fala também na sorte dos papelinhos. Um dia escreveu José ao acaso e afinal...acertou.
Ver a sombra Na água lampa
Na noite de São João, antes de nascer o sol, quase toda a gente ia até à beira de um poço ver a sua sombra na água. Conceição também ia mas agora já não se importa: "A morte vem quando tem de vir e não tem nada a ver com isso." Dizem que quem não conseguir ver a sua sombra, não há-de chegar ao ano seguinte. É Maria José quem nos conta alguns episódios relacionados com este costume. Em noite de São João, há muitos anos, foi sua irmã Clara, com a filha ao colo, até à beira de um poço. Morrera-lhe a primeira filha ainda bebé e preocupava-a a vida da segunda. Ficou contente quando viu na água o rosto da menina, embrulhada no xaile. Só não viu o seu. "Quando chegou a casa contou à irmã e voltaram lá as duas mas ela tornou a não se ver. Afinal, não chegou ao São João do ano seguinte. Em Março, andava a apanhar comida à volta desse mesmo poço, caiu e morreu." Faz uma pausa. Abre o forno e tira para fora dois bolos doces. Arruma-os em cima da mesa e retoma a conversa. Lembra-se da história da prima Júlia. Uma vez não viu a sua sombra na água mas não ficou muito preocupada: "Preparou todas as suas roupas para quando morresse. Mas afinal quem morreu foi o marido." Também o avô de Maria José disse uma vez não ter visto a sua sombra e "morreu na véspera do Pão-por-Deus".
Bochecha de água à espera de um nome
Maria José ri-se. Fala na mãe e de como um dia resolveu experimentar determinada sorte. Manda que se tome uma bochecha de água e se aguarde debaixo de uma figueira branca, rezando o Creio-em-Deus-Pai, até ouvir o nome de um rapaz. "Diziam que minha mãe ia casar como o moço da madrinha, que se chamava Valentim, mas ela não gostava nada dele. Nesse dia, foi o primeiro nome que ouviu e ficou tão chateada que nem acabou de rezar. Afinal veio a casar com outro rapaz que também se chamava Valentim." Também havia quem se pusesse atrás da porta à hora das Avé-Marias, com a bochecha de água, à espera de ouvir o nome do futuro marido. Por isso, era uma algazarra de vozes àquela hora...ouviam-se todos os nomes conhecidos, para o caso de alguma rapariga estar com a bochecha à espera. Havia quem fizesse todas as sortes. As mais impacientes escreviam os nomes em três papelinhos mas não esperavam para o dia seguinte. Atiravam dois deles à fogueira. O nome que lhes ficasse na mão era o do pretendente. Lusco-fusco. Fogueiras aqui e ali. Saltar era um ritual obrigatório. Gargalhadas misturavam-se com o som característico do louro e do buxo ao arderam. Comentava-se o tamanho da fogueira em comparação com a dos vizinhos. Mais mato para atear o lume e também umas pinhas, trazidas quando foram às "lampas".
Casas e fontes Enfeitadas com "lampas"
Durante a tarde da véspera de São João, a rapaziada metia-se pelos pinheirais, subindo ribanceiras à procura de louro, murta e alecrim. Com os ramos destes arbustos enfeitavam-se as janelas, as portas das casas e ainda as fontes. Nestas também se colocavam olhos de cana e palmas. Acreditava-se que as "lampas", noutros locais chamadas "bentas", tinham o poder de afastar os maus olhados e outras desgraças. Na véspera de São Pedro recolhe-se as "lampas", que são queimadas na fogueira. Conceição diz que costumava fazer a sorte dos cardos. É fácil. Basta queimar na fogueira as pontas de três cardos e plantá-los, atribuindo um nome a cada um. Apenas um deles volta a florescer durante a noite. Nunca fez a da moeda. Maria José também não. "Mas uma vez, Cecília e Maria José do Ti Noé atiraram um tostão à fogueira e no dia seguinte o primeiro homem que encontraram foi um João. Ambas vieram a casar com um João..." Histórias que nunca mais acabam. Maria José explica outra sorte: "Põe-se três latas debaixo da cama: uma com flores, outra com água e outra com terra. Ao levantar toca-se numa sem ver. Flores era uma alegria porque quer dizer casamento. Toda a gente queria casar..." Água significa viagem e terra é sinal de morte. "Fui remediadinha, sempre tive que comer e vestir..." Fala-nos já de outro costume. Trata-se de colocar três favas – uma com casca, uma meia descascada e outra nua – debaixo do travesseiro. O objectivo é saber se a pessoa será rica, remediada ou pobre. As sortes não ficam por aqui. Há outras. Algumas com muita originalidade, como a que consiste em colocar um caracol em cima de um pano preto, tapado com uma caixa, a ver que letra há-de fazer durante a noite. Ou segurar uma vela acesa sobre um recipiente com água e esperar que a cera, ao cair, forme um nome. Ou ainda guardar um zangão dentro de uma flor de aboboreira e soltá-lo no dia seguinte, para que indique o lado onde se há-de morar. Deitar um ovo num copo com água, rezar sobre ele o Creio-em-Deus-Pai com uma cruz de alecrim e deixá-lo ao sereno da noite era ritual obrigatório. Em causa, o futuro. "No dia de São João, todas as raparigas iam a casa da minha tia Madalena com o copo para ela explicar o que era." Maria José recorda novamente a irmã. "Aparecia-lhe sempre a porta de um cemitério." A outra aparecia sempre uma casa quadrada, "mas minha tia dizia: casa quanto caibas e bens que não saibas".
Passar num vimeiro Para sarar umbigo
Conceição costumava ir ao Garajau no dia de São Pedro, pois "é lampo todo o dia". Pelo São João "só é lampo antes do sol sair." Por isso é bem de madrugada, antes de nascer o sol, que se corre a tomar água das fontes para guardar, a recolher o orvalho que ficou nas plantas para usar como remédio para os olhos ou para as eczemas da pele, a colher plantas para chás, a plantar flores para pegarem mais facilmente ou a carregar de pedras árvore que não dê fruto. Ou ainda a colocar um pouco de cabelo na ponta de uma aboboreira, de um vimeiro ou num olho de cana, para que vá crescendo forte e rápido, ao mesmo tempo que essas plantas. "Ia-se de manhã, antes que a praia enchesse. Era um bando de raparigas. A ti Maria Miranda, que não tinha filhos, é que tinha pachorra de ir mais a gente. Levava-se almoço e depois cada uma dava dois mil e quinhentos para comprar refresco", recorda. Encolhe os ombros. "Era assim!" "Arranjava-se semilhas com atum, bacalhau ou gaiado, cebola e pão e ia-se até aos Reis Magos na noite de São João. Levava-se uma gaita, um machete e ia-se cantando e bailando o caminho todo. Depois para subir isto tudo é que já não havia gana e quase que não se chegava", conta, a certa altura, Maria José. O sol baila na manhã de São José. Assim crê o povo. "Uma vez fui ao cabeço dos Algerozes. É verdade que o sol parece que fazia uma bailadinha, mas não era o baile de oito", recorda Maria José. Era a última coisa. Antes era preciso ver o resultado de todas as sortes. "Quando um bebé tem o umbigo roto, passa-se num vime que fica bom", garante-nos. Deve ser na manhã de São João e só resulta se forem dois jovens a fazê-lo, um João e uma Maria. Explica que é preciso escolher um vime grosso, cortar a meio e passar o bebé três vezes entre as duas partes do vime. Eis o diálogo: "- Toma lá, Maria. – Que me dás, João? – Um menino roto, para me dares um são." O "poço da fonte" era enfeitado com arcos de flores e verduras. Toda a gente lá ia. "Hoje todos têm água em casa e já não se faz isso..." Ir a Santo António da Serra, a São João da Ribeira ou a São Pedro, à Ribeira Brava, não era tão fácil como hoje. Das serras do Caniço até lá eram muitas horas de caminho. Até à Ribeira Brava a viagem tinha de ser de barco. Mas iam e divertiam-se. "É preciso não esquecer de pôr o cravo que se traz da festa de Santo António debaixo do travesseiro. Sonha-se com o rapaz com quem se vai casar", recomenda, à despedida, a senhora Maria José.
Lília Mata
Este texto foi baseado num trabalho que publiquei no Diário de Notícias do Funchal, a 12 de Junho de 1989, com o título "O sol baila na manhã de São João." Está aqui transcrito apenas com pequenas alterações de linguagem, não de conteúdo. Conceição Nóbrega, uma das mulheres que entrevistei na altura, já faleceu. Mas o seu contributo continua nestas linhas sobre a memória de tradições quase desaparecidas.
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