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Semelhante gente

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    É uma história muito comprida e até parece mentira. Minha boa verdade como dava uma novela. Eu ainda andava para casar, vê lá ao tempo que foi. Foi assim: o João andava para casar com uma rapariga da freguesia dele. O José, que era do nosso sítio, mas agora está embarcado, andava para casar com a Maria, que morava na Ribeira.

    Ela tinha 14 anos, toda a gente dizia que ela era ainda uma pequena sem juízo. Era trigueira e engraçada. Não é que fosse muito bonita. E era muito magra. A avó dela até dizia: "Não se preocupem que eu vou comprar leite para ela beber. Ela há-de engordar um bocadinho, para ir à festa com o rapaz." E assim foi.

    Aconteceu que João e José eram amigos do quartel e encontraram-se no arraial. E foi nesse dia que Maria e João se namoraram. Ele começou a ir a casa dela e ela acabou tudo com o José. Claro que ela não sabia que o João já tinha noiva. Ora, aquilo foi falado e Francisca, a outra, quando soube veio a casa da Maria. Pediu-lhe que mandasse o João embora, porque ele já tinha obrigação de casar com ela. Ela não tinha mãe e trouxe com ela um irmão e uma irmã.

    Ela então disse à Maria que se ela teimasse em não deixar o João, o irmão, que se chamava António, ia matá-lo. Mas ela teimou e disse que não, que não e que não. E que se ele morresse, a cabeça dele ficava lá enterrada no quintal. A mãe de Maria apoiou. Disse que ele gostava dela porque ela era mais bonita e vestia bem. Até mostrou à Francisca toda a roupa boa que Maria tinha. E também disse que fazia comeres bons e mostrou-lhe a massa de estrelinha que era costume cozer.

    Francisca ficou em casa de umas mulheres, acolá além, para o outro dia, para despachar tudo. O irmão também veio e foi vigiar a casa de Maria para o cabeço. Era um domingo, Dia de Pão-Por-Deus, nunca me há-de esquecer. Eu vinha por esse caminho e vi tudo. Eles encontraram-se e António começou a andar atrás de João com uma navalha. Não sei como é que ele conseguiu, mas escapou. E não correu, foi sorrateiro como um cachorro. Exactamente como um cachorro que havia numa casa acolá em baixo, que entrava nas casas sem ninguém perceber. Bem, ele quando chegou ao pé da fonte subiu para cima e meteu-se por uns terreiros dentro. Depois, soube-se que ele tinha se escondido em casa de um tio da Maria até à noite.

    No cabeço, na altura que ela desapareceu, a Francisca começou a gritar com quantas goelas: "Ah minha mãe querida, ah minha mãe querida..." Eu fiquei muito assustada a ver aquilo. Pensei que o António ia matar o João. Depois eu até ia ter que ser testemunha daquela desgraça. A Francisca? Olha, era mais ou menos, de cabelo frisado, muito preto. O João é que era bonito como um safado.

    Aquilo deu muito que falar. Ninguém falava noutra coisa. Se fosse agora já não era assim. Os tios da Maria chegaram até a fazer uma reunião e foram todos a casa dela, à Ribeira, tentar convencê-la a não querer mais o João. Mas ela continuava firme na sua ideia e o noivado seguiu.

    Nisto, o pai da Maria, que estava na Venezuela e ia mandando buscar os filhos, um de cada vez, mandou buscá-la. Ela foi, com a intenção de casar com o João por procuração e lhe mandar a seguir uma carta de chamada. O João ficou vivendo em casa da futura sogra, assim sem lhe ser nada, sem ser de água nem de sal.

    Até que Maria deixou de lhe escrever. Dizem que arranjou outro na Venezuela. Mesmo assim ele continuou a viver em casa da família dela e arranjou emprego cá na freguesia. Depois ele começou a andar para casar com uma rapariga mais de lá de baixo, de ao pé da Igreja. Ora vê-me que ela até vinha de visita a casa da família da Maria, onde ele vivia, como se viesse a casa da sogra. Não é mesmo uma coisa de espantar? O João fez um quarto de casa lá para as bandas do sogro, para casar, já se sabe. Mas espera que isto ainda não acabou. Um dia, o João foi passear de carro com uns amigos e aconteceu de matarem um homem. Eles puseram-no na beira do caminho e fugiram. Daí a tempos veio-se a descobrir a verdade. Esses rapazes foram presos, menos o João, que conseguiu fugir para a África do Sul, sem papeis legais. Naquele tempo muita gente fazia isso.

    Depois, na África do Sul eles fizeram uma lei para mandar embora tudo quem não estava legal e ele foi apanhado e obrigado a voltar para cá. Assim que ele chegou foi preso. E a Francisco é que ia à cadeira vê-lo e levar-lhe comer. Não sei o resto da história. Não sei se o João casou com a Francisca, mas deve ter casado. Nunca mais ouvi falar de semelhante gente.

 

Lília Mata

In DN-JOVEM 23/06/1992

(Tema: "Traição"

Texto vencedor por votação dos leitores)

 

 
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