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I Eu sentei praça em 1925; lembro-me até da guerra de 1914. Aquilo era terrível! Passou-se muita fome. Eu ia lá abaixo ao calhau buscar umas pipas que vinham do norte cheias de trigo mas fingindo que era vinho. Trazia-se as pipas para o vendeiro, ele ia de noite ao moinho moer o grão e fazia pão. Depois juntava-se na venda um povio. Gente ali a desejar um bocado de pão para matar a fome. Quando alguém perguntava se tinha pão ele dizia à mulher: "Júlia, tem pão, não?" E ela já sabia que era para dizer que não tinha. As pessoas ficavam ali desconsoladas. Mas minha mãe era parteira e acudia à mulher dele quando ela tinha pequenos. Então, eu ia lá e ele dizia: "Júlia, tem pão, sim?" E ela ia lá: "Acho que tem ali dois no fundo da caixa." Embrulhava-me os pães, eu pagava e ala para casa. Era assim. Sempre se tinha mais sorte do que os outros.
II
- Olhe, um dia eu estava dentro de casa mais irmão, minha mãe tinha caminhado que ela era parteira, e ouvimos gente bailando e rindo em cima da telha da casa. Sentia-se aquilo tudo se partindo, era aquele barulho, aquela algazarra...no outro dia ia-se lá ver estava tudo inteiro.
- Eu não, mas havia deles que encontravam. Elas obrigavam os homens a irem pô-las a casa às costas. Davam-lhes de comer e de beber e eles voltavam a estar no mesmo lugar sem o tempo se ter passado. Chegavam ao seu destino à mesma hora.
- Uh! Se havia! E aquilo quem soubesse que certa mulherera feiticeira não podia descobrir. Minha mãe uma vez encontrou uma e ela disse-lhe: "Vai-te embora e cala a boca." Mas minha mãe descobriu; depois começou a adoecer e não demorou muito a morrer. Eu cá penso que... Sabe, para uma morte é preciso sete feiticeiras assinarem.
- Às vezes via-se uma bolas de fogo a rolar pelos caminhos ou fogueiras a arder nos cabeços e quando se chegava lá não tinha nada, nem sequer cinza. E partidas que elas faziam! Isso nem sequer se fala! De noite cortavam o cabelo às pessoas quando elas dormiam. A uma rapariga de acolá de baixo um dia elas cortaram a roupa toda que ela tinha na caixa do dote fechada.
III
Eu já a conhecia desde que se era pequenos. Mas comecei a olhar para ela quando se ia levar o leite à máquina para desnatar. Só falei com ela uma vez. Ela disse-me: "Vai-me pedir a meu pai." Ora, eu fui e ele mandou-me voltar daí a oito dias buscar a resposta. Era tudo assim naquele tempo. Eu voltei no dia marcado e já fiquei lá para a ceia. Não me esqueço, era papas de farinha de trigo num alguidar só para aquela casa de gente. Era cada um com a sua colher, naquela mesa grande, à volta do alguidar das papas. Depois andava-se para casar; eu ia lá às quintas-feiras e aos domingos, como era de moda. Cumprimentava-se um ao outro com uma mãozada, não era nada como agora. Acha que se andava aos beijos com nestas novelas que dá na televisão? Nem pensar! Eu dei-lhe um beijo uma vez mas foi às escondidas. Deus me livrasse se o pai dela soubesse. E mesmo mais ela não deixava; cá se ela quisesse... Sabe o que é que eu digo? Que hoje, só de se ver na televisão goza-se mais que naquele tempo vivendo. Também não se caminhava sozinhos. Isso! A primeira vez que eu saí mais ela fomos à serra buscar lã de ovelha para se fazer a cama dos noivos.
- Menina, casar e morrer é uma vez só. E além do mais eujá estou velho. Acha que eu ia casar com uma rapariga mais nova para os outros terem mulher?
Lília Mata In DN JOVEM 8/09/1992
Este texto resultou de uma conversa com o senhor João de Nóbrega Chícharo, do Sítio da Tendeira, também conhecido por João da Matilde. Vi-o uma única vez, no Verão de 1992. A minha tia Romana estava de férias na Madeira e trazia recomendações dos familiares do senhor João, também emigrados na Venezuela, para que lhe fizesse uma visita. Acompanhei-a nessa visita e conversei com ele. Depois escrevi este texto, que foi premiado no suplemento jovem do Diário de Notícias de Lisboa. Soube há pouco tempo que o senhor João já faleceu.
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