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Festas na Paróquia das Eiras
Romagens, Procissões, Tapetes de flores: Um ritual antigo com novo sabor
Foi quase tudo igual. Quase tudo como há trinta anos, quando eu ia na Romagem das Eiras vestida de viloa. Desta vez também fui na Romagem, participei em todos os rituais; retive na memória as imagens, quadros de uma tradição que se repete ano após ano e sempre com o mesmo sabor. Vivi e revivi. Presente e passado misturavam-se e eu senti-me contente por estar ali. Ouviu-se o fogo ao meio dia, a anunciar o arraial. Em casa faziam-se os últimos preparativos: a roupa das crianças, o papel para embrulhar os segredos, um bocadinho de papel para colocar o preço num bordado.Mais tarde, à hora marcada, o pároco foi a cada um dos sítios acompanhado da Banda Filarmónica, assistir ao início das Romagens. Abegoaria, Palheiro Ferreiro, Pinheirinho (Ribeira dos Pretetes, parte de cima), Fontes (Ribeira dos Pretetes, parte de baixo), e Eiras. Em cada um destes locais respirava-se o mesmo ar festivo. As pessoas preparavam-se, tentando encontrar a melhor forma de exibir, durante o percurso da romagem, os seus presentes para o bazar; e entretanto trocavam cumprimentos, por vezes com "embarcados" que não viam há muito. De repente todos se calavam para o momento solene do hino, tocado pela banda. No Pinheirinho optou-se por trazer de carro as oferendas para o bazar; é longa a caminhada desde lá de cima e há muitas pernas a ficar cansadas. Os carros passaram nas Fontes, no caminho novo que agora liga as Eiras ao Serralhal, no preciso momento em que a banda interpretava o hino. No Chão das Eiras vivia-se a movimentação que caracteriza esses momentos de espera, o mesmo burburinho, as mesmas exclamações de admiração perante este ou aquele bordado. As raparigas vestiram-se com roupas coloridas, algumas crianças de viloas ou vilões.
Depois do hino, tocado em frente da imagem de Nossa Senhora colocada no Fontenário, os olhares fixaram-se no caminho das Fontes, onde já se avistavam as primeiras crianças, todas vestidas de igual, as raparigas com saias e lenços de seda cor-de-rosa. E lá vinha a árvore do dinheiro, como aquilo me impressionava quando eu era criança! Um galho seco com muitas notas coladas, como se tivessem brotado dos seus ramos. Não faltavam os bolos, os cestos com hortaliças, os panos de tabuleiro bordados, os segredos, vasos de flores e pequenas gaiolas com animais, desde coelhos a palheiros. As duas romagens juntaram-se numa só. O padre Rogério acompanhou o percurso, a banda seguiu atrás, sempre a tocar ao longo do caminho da Igreja.
Ao bazar já tinha chegado a Romagem do Pinheirinho e do Palheiro Ferreiro, a da Abegoaria espreitava alguns metros abaixo.Era altura de ir entregando as oferendas no bazar, para que as responsáveis as fossem organizando da melhor forma. Mas sempre atentos para não perder as cantigas, ensaiadas de propósito para a ocasião. Em tempos, lembro-me bem, todos os sítios tinham as suas cantigas, "estudadas" de propósito para a festa desse ano, de preferência acompanhadas por uma acordeão, por vezes apenas com as vozes. Este ano, porém, apenas dois sítios prepararam cantigas para as romagens: Abegoaria e Eiras. Cantigas inventadas para louvar a Virgem da Paz, a dedicação do pároco, o trabalho dos paroquianos, a memória dos emigrantes ausentes. E desta vez, naturalmente, referida a nova Igreja, concluída há pouco mais de um ano.
Foi a segunda vez que a festa se realizou no novo templo, o espaço que as pessoas ansiaram durante 35 anos, recolhendo ano após ano, o dinheiro que podiam para ajudar a concretizar o sonho. Muitas mãos bordaram para a romagem e não chegaram a ver a nova Igreja. Mas o dia chegou! Todos os domingos a Igreja de Nossa Senhora da Paz enche-se de fiéis, muitos deles de fora da paróquia. Nos três dias das festas de Nossa Senhora da Paz e do Santíssimo Sacramento (a dez, onze e doze de Agosto), foram muitos mais aqueles que se deslocaram até às Eiras. Está tudo a postos. As pessoas atentas, armando uma roda em baixo, no largo junto ao bazar. À frente, o pároco. Vamos então às cantigas. Primeiro a Abegoaria, depois as Eiras. São grupos compostos na sua maioria por jovens, acompanhados de diversos instrumentos musicais: violas, violino, flautas...A Romagem da Abegoaria até trazia um tambor.
Cantigas da Abegoaria
Introduo
E quem no gostou? O som do tambor deu msica um estilo especial, inovador, sobretudo jovem. Muitos aplausos, claro! E agora, as cantigas das Eiras.
Cantigas das Eiras
Sejamos nesta romaria Os primeiros!!!
Nosso Pastor junto a ns Mais um ano mais um dia - EH! EH! P'ra nossa Parquia ノ sempre orgulho e alegria - EH! EH! Com sua satisfao Se sente contente - EH! EH! Lutou e vitoriou Lutou e vitoriou Para ajudar nossa gente! Refro: A nossa querida Aldeia est em festa Maravilhosa que bela tarde esta Juntem-se a ns - Ai! Ai! Oh! forasteiros - Ai! Ai! Sejamos nesta romaria Os primeiros!!!
Ajuda ao Pai do Cu Pedimos com fervor - EH! EH! Que as festas que iniciamos Sejam de paz e amor - EH! EH! P'ra louvar a Virgem Me E o Santssimo Sacramento - EH! EH! Estamos com muita f, Estamos com muita f, Neste preciso momento! Refro
Fazemos as nossas preces タ Virgem e a Jesus - EH! EH! P'ra afastar-nos das trevas E vivermos na sua luz - EH! EH! Nossa Senhora da Paz De todo o povo querida - EH! EH! Fazei de ns seu modelo Fazei de ns seu modelo Dai a paz nossa vida! Refro
Oh! Virgem vos rogamos E a Jesus agradecemos - EH! EH! O melhor p'rs nossas vidas E o que de vs recebemos - EH! EH! Que este cantar seja a voz Deste povo sonhador - EH! EH! Que a cada dia que passa Que a cada dia que passa Est mais grato ao Senhor! Refro A nossa querida Igreja Um ano est afazer - EH! EH! Somos as Pedras Vivas Felizes de a ver crescer - EH! EH! Nossa Igreja foi um sonho Na parquia desejado - EH! EH! Estamos muito contentes Estamos muito contentes Ser sempre festejado! Refro Apenas faltava o sino A compor o seu lugar - EH! EH! E l ao cimo o relgio Para as horas alertar - EH! EH! Por entre essa ramaria Que bela contemplao - EH! EH! Os sinos a nos chamarem Os sinos a nos chamarem Est na hora da orao! Refro タ Virgem e a Jesus Ns pedimos confiantes - EH! EH! As benos pエra a parquia E prs nossos emigrantes - EH! EH! P'rs Crianas e doentes E p'r povo mais velhinho - EH! EH! Ns pedimos ao Senhor Ns pedimos ao Senhor Para guiar seu caminho! Refro De todos ns nos lembramos De uma forma especial - EH! EH! Adeus ao nosso povo Estamos chegando ao final - EH! EH! Mas que estes trs dias fiquem sempre na lembrana - EH! EH! Voltar aqui p'r ano Voltar aqui p'r ano Ser sempre a esperana!
Refro: A nossa querida Aldeia est em festa Maravilhosa que bela tarde esta Juntem-se a ns - Ai! Ai! Oh! forasteiros - Ai! Ai! Sejamos nesta romaria Os primeiros!!!
Eiras, 10 de Agosto de 2002
Houve ainda as cantigas de roda de outros tempos, encenadas por um grupo de crianas das Fontes e das Eiras. Depois comeou-se a ouvir uma voz que anunciava, atravs do altifalante, as primeiras rifas. Houve novena, banda, grupo musical. At depois da meia noite, o som do arraial ecoava pelos vales e cabeos das redondezas. No domingo, dia da festa propriamente dito, a procisso sempre um ponto alto. Desta vez tambm no faltaram as crianas com os seus trajes da primeira comunho, os irmos e irms do santssimo com as suas capas vermelhas, os crios a arder para pagar os favores concedidos pela Virgem. Depois, mais umas rifas, uma e outra bebida, a actuao do Grupo Folclrico da Boa Nova, a banda, o Grupo Musical dos Reis Magos, e ainda o Duo Caires.
Na segunda-feira a Festa do Santíssimo Sacramento realiza-se sempre ao fim da tarde, por ser dia de trabalho. O tapete deste ano estava lindo, talvez tenha sido o mais bonito de sempre. Mas isso é o que se diz todos os anos, quando os olhos se espantam perante a beleza das composições, e o olfacto se delicia com o cheiro do alecrim e do cedro que perfuma o ar. Depois da festa e da procisso, o arraial continuou e houve quem ficasse mesmo at ao fim, a saborear todos os momentos de mais uma Festa das Eiras.
Texto : Llia Mata Fotos : Paulino Nóbrega
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